segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Sobre um livro que você pode ouvir

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Este livro é, talvez, a leitura mais importante do meu 2019.

Falo "meu 2019" porque acho que meu caminho este ano teve umas nuances bem peculiares. Esta segunda parte do ano está se contrapondo ferozmente ao que foi um verdadeiramente pavoroso primeiro semestre. Não me alongarei muito sobre isso, pois são jornadas bem pessoais, das quais meus leitores, de um modo geral, ou já sabem, ou não precisam saber mais do que o necessário.

O fato é que eu sou autista. Diagnosticado aos 17 anos, em 2010, quando meu transtorno era conhecido primariamente como Síndrome de Asperger, essa descoberta me deixou bastante confuso à época, mas foi um primeiro passo importante para que eu entendesse muitas situações incomuns pelas quais eu passava, as quais eu percebia que não eram enfrentadas pela grande maioria das pessoas.

É interessante como a vida nos leva às pessoas certas, ainda que, talvez, do jeito menos convencional. A minha jornada com esse livro teve uma historinha curiosamente meteórica. Eu conheci o livro "Guia Prático para Autistas Adultos" em meados do mês de agosto, através do Instagram do Aspie Sincero, um dos expoentes da comunidade autista brasileira nas redes sociais. Ele produz um conteúdo sensacional. Foi uma época em que estava começando alguns tratamentos, de certa forma, "experimentais" do ponto de vista daquilo que é ou não é "comum" de ocorrer. E também estava começando a descobrir algo muito maior do que eu pensava que era: uma comunidade enorme cheia de gente parecida comigo, com nuances, ideias e até problemas parecidos. Sempre me senti muito sozinho no mundo, mesmo quando rodeado de pessoas. Mas ali eu soube que não estava.

Eu tinha muito receio em comprar coisas em pré-venda, pois meu cérebro autista me levava a ficar raciocinando de forma mirabolante sobre como isso poderia dar problemas das mais diferentes maneiras possíveis. Mas a ideia de ter o livro autografado - este era o único meio de tê-lo - acabou acentuando meu lado colecionador e isso me fez criar coragem para comprar.

E isso me levou a conhecer a Daniela, autora do livro. Poderia ser algo muito inusitado, mas simplesmente não foi. Dani é uma pessoa super aprazível, cheia de disposição para ouvir nossos comentários, dúvidas e até críticas. E, para um pouco de surpresa minha, adora um bom papo. Inteligente, sagaz e divertida, a autora é um doce de pessoa e tudo em sua comunicação e no conteúdo de seu projeto que está à disposição do público nos faz crer na verossimilhança e legitimidade de suas experiências. Conversamos inicialmente por uns trinta minutos, um papo super legal. E tive a "audácia" de lhe pedir um autógrafo especial, o qual mostrarei ao final desse texto.

Daniela me disse que seu livro era ágil e de leitura rápida, feito para ser devorado em uma tarde. E era mesmo. Mas enrolei um pouco a leitura, pois não consigo ficar concentrado em leituras por muito tempo, a menos que esteja realmente determinado a conclui-la. Mas ontem eu consegui entrar de cabeça na narrativa do livro e li nada menos que umas 60 páginas sem grandes interrupções, tamanha  de fato é a agilidade de leitura. E é aqui que começamos a resenha propriamente dita.

A autora cumpre o que promete na proposta do título. Tecnicamente é um projeto que, por vezes, remonta o estilo "auto-ajuda" de maneira bem evidente, mas passa longe de um mero "best-seller-do-autor-palestrante-coach". Aqui temos a própria Daniela, disposta a contar, sem firulas, suas experiências de vida e as influências do funcionamento de seu cérebro TEA (transtorno do espectro autista) em suas ações e reações aos constantes desafios da vida humana, ampliados pela condição do espectro. 

A leitura, como já dito, é ágil e nunca fica maçante, passeando pela melancolia na descrição das experiências, o que é verossímil considerando as condições presentes, que vão desde o próprio cérebro da autora até as conjunturas sócio-econômicas e emocionais pelas quais ela passou, até chegar no guia propriamente dito, onde a melancolia conversa com a mais pura e cirúrgica assertividade, ao propor objetivos e metas para que o leitor - este é um livro desenvolvido primariamente para autistas adultos - trace as suas próprias estratégias para lidar com o mundo como ele é, e não como ele gostaria que fosse.

Traçar as próprias estratégias. Sim, este é o objetivo de Daniela para o leitor. Afinal, durante o texto, a autora nunca dá respostas prontas, fáceis ou rápidas, pois sua narrativa sempre transmite a natureza dramática de suas próprias experiências, a fim de demonstrar, em situações reais e cruas, como de fato um cérebro autista pode funcionar. 

Durante a leitura, minha grande preocupação seria em como a autora trataria a natureza da condição autista. Afinal, em seus vídeos do youtube, Daniela afirma categoricamente várias vezes que o autismo é uma "forma de ver o mundo", o que me causou inicialmente algum incômodo e me fez debater com ela este ponto algumas vezes. Contudo, ao ler o livro, entendi o real significado de suas palavras. O autismo de fato é uma forma de ver e sentir o mundo, só que bem diferente das pessoas neuro-típicas (pessoas que não possuem distúrbios de funcionamento neurológico ou neuro-comportamental). Mas se numa primeira análise - muito mal executada, por sinal - me pareceu que ela estava transmitindo ao público que o autismo seria uma questão de escolha, quando inserida no contexto do livro a frase ganha significados muito mais amplos e verossímeis. 

O autista vê e sente o mundo de maneiras peculiares devido a sua condição neurológica distinta do funcionamento cerebral neurotípico e isso é sempre respeitado no livro. Contudo, Daniela vai além e propõe soluções fora das convencionais cartilhas contidas em livros sobre autismo escritos por cientistas e médicos, baseadas em suas próprias crenças e convicções. Isto é perfeitamente cabível dada a proposta do livro, mas cabe a você, leitor, seguir ou não as propostas. O mais importante é procurar ter objetivos que façam você, autista adulto, ser uma pessoa melhor, seja com os métodos e convicções propostos pela autora ou com os seus próprios métodos pessoais. Isso depende de você. 

Com esta publicação, Daniela ajuda a abrir a cortina de um novo panorama literário para a compreensão do autismo adulto, pois seu texto vai além de um guia para autistas adultos e se torna um convite para pessoas de outros espectros da neurodiversidade e, por que não dizer, para pessoas neurotípicas também. Afinal, é muito mais comum a literatura sobre o autismo infantil, como se ele deixasse de existir na adolescência e na fase adulta. Como se não mais fossemos precisados de compreensão e ajuda e fossemos simplesmente jogados ao léu da hostilidade social como se já tivéssemos obrigação de atender a todas as expectativas... e a verdade é que nós, principalmente os autistas leves e moderados, acabamos tendo realmente de atendê-las, muitos de nós sem as devidas estratégias para tanto. Esta publicação é importantíssima para abrir os olhos da sociedade sobre o autismo adulto. Sobre os autistas que estão se descobrindo e sendo descobertos. Sobre como existimos e procuramos maneiras de sobreviver, mesmo num mundo hostil e confuso para nós. 

Uma leitura indispensável para qualquer pessoa que gostaria de descobrir mais sobre os autistas adultos, mas obrigatória os próprios autistas adultos.

Autistas de todos os países, UNI-VOS!

Resenha Crítica do livro:
Guia Prático para Autistas Adultos - Como não surtar em situações do cotidiano 
(Daniela Sales, 2019 - Projeto Vida de Autista)

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Autógrafo do livro, feito pela Daniela. É ou não é uma frasezona da p****?

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Sobre "JAWS" (1975)

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TUBARÃO - filme de Steven Spielberg (1975) 

É particularmente difícil de acreditar que um filme como este possa ter sido concebido numa época em que não havia CGI (imagens geradas por computador), e com um orçamento de apenas US$ 10 milhões, hoje impensável para qualquer obra hollywoodiana do gênero. 

Mas aconteceu. 

“Tubarão” (Jaws, no original) praticamente inventou o conceito do “blockbuster” de verão norte-americano, com uma aventura sólida e muito bem desenvolvida. Este foi um dos primeiros trabalhos do então novato diretor Steven Spielberg, que aqui provou que não estava para brincadeiras. Utilizando a inventividade criativa com animatrônica que, quase 20 anos mais tarde, o consagraria ainda mais em “Jurassic Park”, Spielberg criou um clássico atemporal que mudou para sempre o imaginário popular sobre praias e banhos no mar.

O roteiro, baseado no livro homônimo de Peter Benchley, é bem simples e sem invencionices. Amity é uma cidadezinha litorânea, que depende essencialmente das atividades turísticas de verão para gerar renda e se sustentar, mas tudo muda quando um tubarão gigante decide se instalar por ali e encher a pança com mergulhadores. E o filme não demora a estabelecer essa problemática, com o bicho “aparecendo” nos minutos iniciais.

Mas por que “aparecendo” entre aspas?

Porque, visualmente, ele não é mostrado. Durante as filmagens, a produção teve um grande problema: o tubarão animatrônico se desfazia rapidamente debaixo d’água. Esta seria uma limitação fatal para qualquer diretor. Mas Spielberg não era qualquer diretor. A solução encontrada? Não mostrar o tubarão. Simples, não? Colocar uma câmera em primeira pessoa para simular a visão do tubarão e tudo o mais... Mas poderia falhar miseravelmente sem dois fatores adjacentes poderosos que, neste caso, foram cruciais. A primeira – e quase sempre lembrada – é a inesquecível trilha sonora de John Williams. Conhecido futuramente por trabalhos como “Star Wars”, “A Lista de Schindler” e “Jurassic Park”, Williams aqui faz músicas perfeitas para cada situação e sensação do filme, passando irretocavelmente pelos gêneros de aventura, suspense e terror. Mas isso não é tudo: a trilha sonora principal praticamente toma a forma do próprio tubarão como personagem na maior parte do tempo, fazendo o papel de anunciar ao público que a fera está ali, mesmo que não o estejamos vendo. Isso é estabelecido de forma eficiente desde as primeiras cenas a ponto de, nos momentos mais adiante, já nos condicionar a esperar novas aparições da criatura, em um exemplo muito esperto de condicionamento clássico (ou pavloviano). Uma trilha sonora que ganhou o imaginário popular pelos anos subsequentes e se tornou sinônimo do próprio suspense como um todo.

Já o segundo fator geralmente não é tão lembrado assim nas críticas, mas deixar de falar dele é um imenso pecado. É claro que me refiro ao trabalho de montagem da editora Verna Fields. Filmar e editar cenas com o animatrônico naquela época provavelmente não era uma tarefa nada simples, e isso engrandece ainda mais o trabalho de Verna. Praticamente não dá para sentir os cortes e o bicho parece ainda mais verossímil, tanto mostrado em cena quanto apenas sugerido através da câmera em primeira pessoa. Um trabalho genial de montagem, que rendeu a Verna o Oscar de melhor edição de 1976.

O roteiro não tem qualquer pressa em apresentar os personagens e estabelecer conflitos e, assim, os faz parcimoniosamente. Isso garante ao filme várias camadas de desenvolvimento que vão além do problema mais proeminente da trama, passando pela aventura e até mesmo pelo humor em algumas cenas, o que potencializa os momentos de suspense e de terror. 

Os personagens são muito bem construídos e possuem estereótipos bem claros, mas passam longe do unidimensional, principalmente os principais. E isso nos leva ao outro grande forte do filme: o elenco. Roy Scheider cumpre satisfatoriamente o papel do chefe de polícia Martin Brody e sua atuação é perfeita ao mostrar a paranoia que seu personagem sente a partir das notícias do primeiro ataque, e isso vai aumentando gradativamente conforme a ameaça do tubarão vai ficando cada vez maior e mais iminente. O personagem de Richard Dreyfuss contribui ainda mais com essa paranoia; conforme o desenrolar dos acontecimentos, o oceanógrafo Matt Hooper dá pistas cada sobre o tamanho do perigo que eles irão enfrentar. Mas este círculo não ficaria completo sem o competentíssimo Robert Shaw: seu personagem Quint é sisudo e valentão, e confronta diretamente o pragmatismo dos outros dois personagens, mas ao mesmo tempo traz uma colaboração primordial para o que será o confronto final com a criatura, que passa tanto pela vastidão de suas habilidades de caça quanto pela profundidade dramática de suas experiências – e aqui, especificamente, temos uma das melhores senão a melhor cena do filme todo – tudo graças a uma grande performance do ator. Também estão muito bem Lorraine Gary como Ellen Brody, esposa de Martin e um apoio emocional necessário ao protagonista, e Murray Hamilton como o prefeito Larry Vaugh, este último retratado de maneira algo vilanesca por se preocupar muito mais com o retorno financeiro das atividades de veraneio da cidade do que com o perigo da situação, mas posteriormente redimido pelo roteiro. Sua preocupação, afinal pode parecer mesquinha – e é, em primeira análise – mas ele cede ao bom senso no final das contas.

Mas todo esse texto seria inútil se não falássemos do clímax do filme: e é aqui que, depois de toda a paciência do diretor ao construir os dois primeiros atos, temos finalmente o embate final. E Spielberg sabia que, em algum momento, teria de mostrar o monstro em todo o seu poder e glória. Quando ele finalmente aparece, o baque é chocante. Em uma primeira experiência, no mínimo arregalamos os olhos, e nossos semblantes se assemelham ao de Brody quando ele diz para Quint a famosa frase: “você vai precisar de um barco maior”. O terceiro ato é extremamente ágil e a sequência não dá o menor respiro ao espectador, ao passo em que nos sentimos na pele dos protagonistas ao se deparar com o tamanho real do perigo. A inversão de papeis é inevitável: de caçadores, eles se tornam presas. Um clímax construído como foi todo o filme: com pura genialidade.

As limitações de produção da época e a narrativa “arrastada” da primeira metade do projeto são características que podem afastar os fãs mais jovens, geralmente ávidos por aventuras mais ágeis com criaturas perfeitas geradas em CGI. Mas se você sentar a bunda na cadeira por duas horas, calar sua boca e se permitir imergir na narrativa, tenho certeza de que muitas sensações diferentes você poderá extrair deste filme.

Por tudo isso, “Tubarão” é uma obra brilhante. Uma experiência quintessencial e obrigatória para qualquer fã de cinema. Um clássico do suspense. 

Nota: 10,0

domingo, 22 de setembro de 2019

Sobre "Mãe" (2017)

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Outro filme complicado de falar a respeito. Talvez até mais do que “Nós”. A princípio, é bom que se diga duas coisas: Não é um projeto para todos os tipos de público, e acho que este fato é ululante. O outro fato é que é um longa de narrativa muito mais complexo do que o comum, e mais ainda: não há, em momento algum, uma resposta clara sobre o que é que estamos vendo em tela. 

Os fãs mais fervorosos de “Mãe” alegam que é uma grande obra incompreendida, e depois de ter visto o que vi, com as informações que tinha previamente, é seguro dizer que estes fãs não estão errados. A partir do momento em que você tem uma ideia clara da premissa do filme a partir de um mínimo de informação sobre qual é, na verdade, o objetivo do projeto, todos os enigmas parecem muito mais claros. É quase como jogar um jogo de videogame tendo em mãos o detonado completo.

Isso, ao mesmo tempo, tanto engrandece o projeto quanto o deixa um pouco menor. Engrandece, pois o torna uma obra de arte brilhante, quase como uma pintura renascentista feita nos tempos atuais. Mas há uma regra do cinema cuja menção acredito ser válida aqui: um filme deve se bastar em sua linguagem cinematográfica e funcionar pelos próprios méritos. Assim, se um espectador desavisado vai assistir a esse projeto, as chances de frustrar-se são grandes e, em tese, não é possível culpa-lo. Portanto, por este ponto de vista, é compreensível que tenha havido rejeição ao filme. Afinal, como dito no começo, este não é um projeto para qualquer tipo de público. 

A coisa que mais me assombrou, porém, foi a reação da crítica, de quem normalmente se espera mais apuro ao emitir opiniões sobre cinema. Pois, analisando em retrospecto, é um daqueles filmes que se engrandecem cada vez mais e mais com o tempo e os debates. Em suma: a sensação que tenho ao escrever esse texto é a mesma de quando vi “Corpo Fechado”, de M. Night Shyamalan, ou “Amnésia”, de Christopher Nolan; “Mãe” talvez venha a ser considerado, posteriormente, um filme MUITO à frente de seu tempo.

Este é, sem dúvida, um filme único em todos os aspectos. “Mãe” é um projeto que traz consigo uma carga de perturbação muito peculiar e em vários níveis diferentes, que vão se progredindo gradativamente e de forma extremamente absurda, mas ainda assim parecem muito críveis ao passo em que a imersão consegue nos fazer sentir exatamente o mesmo que a protagonista está sentindo. 

Nisso, é possível perceber o dedo extremamente meticuloso do diretor-roteirista. Darren Aronofsky sabe conduzir com maestria todos os elementos disponíveis. O roteiro começa de forma parcimoniosa, apresentando os dois personagens principais de forma bem lenta e já nos coloca de cara na perspectiva da personagem Mãe, de Jennifer Lawrence. Logo depois, apresenta sua relação com Ele, personagem do Javier Bardem. Isso se resolve nos primeiros quinze minutos. Daí em diante, Aronofsky começa a introduzir cada situação absurda uma após a outra, de modo a aumentar gradativamente a tensão sentida pela Mãe, que passa tanto pela impertinência dos personagens que vão aparecendo ao longo do filme, como os de Ed Harris e Michelle Pfeiffer, quanto pela arrogância e vaidade d’Ele. A Mãe, a partir daqui, começa a perder cada vez mais espaço perante os outros personagens e isso é extremamente angustiante, e vai se tornando cada vez mais insuportável até que quando o estopim acontece, ele parece até ser cruel, mas é uma aliviante catarse. Uma construção de roteiro monstruosamente impecável, como uma reta perfeita desenhada sem régua num quadro negro com aquele barulhinho estridente incômodo.

E é porque ainda nem rasguei seda para as atuações. Não se preocupem, pois isso vai começar agora. QUE ELENCO MARAVILHOSO, MEUS CONSAGRADOS! Jennifer Lawrence consegue transitar com naturalidade entre todas as sensações que se espera de alguém na situação de sua personagem. Aversão, indignação, tensão, medo, angústia, desespero, pânico... Tá tudo lá. Ajudam nisso os planos extremamente fechados no rosto da personagem, que tanto mostram suas expressões faciais quanto escondem muito do que está ao redor, o que aumenta duas coisas essenciais num terror psicológico: claustrofobia e medo do que não está sendo mostrado. Javier Bardem consegue passar sensações distintas fazendo muito pouco. Pode-se perceber que seu personagem inspira confiança a Mãe, em menor ou maior degrau ao longo do filme, mas ao mesmo tempo é tão vaidoso e centrado em si que várias de suas atitudes são extremamente incômodas tanto para ela quanto para o público. Ed Harris é muito funcional e seu personagem é uma ponte que nos liga a todos os conflitos que ocorrem na sequência, e a julgar pela meticulosidade do projeto isto é proposital. Mas o grande destaque é mesmo a Michelle Pfeiffer. Sua personagem é como aquele som fininho e agudo de alta frequência. Ela chega com os dois pés na porta, cheia de marra e sua presença é extremamente cativante ao mesmo tempo que incomoda pela impertinência.

A se destacar também a total ausência de trilha sonora, um ponto extremamente positivo. Todo tipo de barulho no filme é diegético e isso é ÓTEMO, pois converge com o tom absurdista. A fotografia também é angustiante, pois transita dos tons suaves aos mais opressores sem muita demora, o que também é ajudado pela claustrofobia já citada, e esta só vai aumentando no decorrer do projeto.

E bem... não falar do aspecto metafórico desse filme seria um insulto. Como já dito, é um filme que oferece uma experiência multifacetada ao extremo. Mas para aproveitar todas estas facetas, não é possível ir ao cinema apenas de mente aberta. Para aproveitar ao máximo a experiência que o projeto quer passar, é inexoravelmente necessário ter uma noção básica de qual (ou quais) metáfora(s) o autor quer nos transmitir. A princípio, para quem lê um pouco sobre o filme antes de assisti-lo, é inevitável encará-lo com base na alegoria cristã, com toda a história desde o Gênesis ao Apocalipse. Há pistas ao longo de “Mãe”, do começo até os créditos finais, que deixam isso indubitavelmente claro. Podem aparecer várias outras ao longo do projeto? Podem... e todas são absolutamente legítimas.  Mas sabe por que? Porque à parte da alegoria cristã, que é a mais gritante, todo o imenso campo metafórico do filme é deixado livre para que nós, o público, o exploremos. É como assistir ao filme “IT – A Coisa”, só que sem a cidade, sem o palhaço e sem medos ou experiências muito específicas sendo abordadas com um enviesamento tão fechado em uma história própria, como no longa de Andy Muschietti. 

Em resumo, este projeto é, ao mesmo tempo, três coisas, a depender de como você se preparou – ou não - para vê-lo: 

1. uma história bíblica fechada;
2. um filme cheio de crítica social, sobretudo a como a sociedade trata as mulheres;
3. o que você imaginar que seja, com base em suas próprias experiências pessoais. Até mesmo se você o achar uma bosta de filme. Isso depende de você.

Com tudo isso, é possível dizer que Aronofsky criou uma obra de suspense e horror absolutamente atemporais. E, ao mesmo tempo, um belo quadro renascentista.

Um brinde a “Mãe”. Um brinde à mãe.

Que obra brilhante.

Nota: 9,5

sábado, 21 de setembro de 2019

Sobre "Nós" (2019)

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"Nós" (Jordan Peele, 2019)

Difícil decidir por onde começar a falar deste filme. Na verdade, acho que é difícil até escrever sobre ele. Mas vamos tentar.

É um projeto MUITO diferente, em todos os sentidos, de "Corra", o primeiro desse diretor. Se lá havia um subtexto que muito mais parecia um gancho de direita na nossa cara sobre a questão racial, este aqui é muito mais subjetivo e cheio de alegorias e nuances a serem observadas. 

O filme começa com cenas relativamente longas de apresentação dos personagens e consegue nos fazer simpatizar com eles com louvor, principalmente a da Lupita Nyong'o. A princípio não ficou muito claro para mim o período exato do filme, mas logo depois entendi que a garotinha do começo seria a personagem de Lupita anos depois.

Feitas as apresentações dos personagens, o filme começa a decolar ainda no primeiro ato com cenas aparentemente simples, mas extremamente tensas. E também começa a desenvolver um ar de mistério, que se mantém durante todo o longa. Juntou tensão e mistério de forma convincente em um único filme? Tchau e benção. É só correr pro abraço.

E daí pra frente o filme decola de vez. Não demora muito para os vilões aparecerem, e quando aparecem, a sensação de mistério e incômodo vão aumentando cada vez mais, a ponto de você ficar se perguntando sempre: “mas que merda é essa?” 

Jordan Peele, contudo, não apenas sabe disso, mas também quer te induzir a isso. Cada cena e cada gesto dos atores são muito bem guiados para provocar estas sensações no espectador. Mas... o diretor-roteirista vai além. Ele demonstra tanto domínio do terror como gênero narrativo, bem como de seus subgêneros (sendo invasão domiciliar e slasher os mais gritantes aqui) que subverte tudo em certos momentos do segundo ato e o resultado se traduz em camadas inteiramente novas de mistério. 

Com isso, diferente de “Corra”, além de não ter um alvo objetivo, “Nós” também não traz muitas respostas objetivas, deixando essa tarefa a cargo da mente de cada espectador.

Mas isso não seria possível sem a escolha cerebral do elenco. E aqui temos mais um acerto de Peele: os atores são MUITO BONS! Eles conseguem trazer características únicas e marcantes tanto para seus “originais” quanto para suas versões sombrias e isso fica evidenciado a cada cena em que somos postos diante da confrontação entre as “versões” de cada personagem. E as versões sombrias são simplesmente tenebrosas e assustadoras e põem um contraponto paradoxal e bem-sucedido em representar o mais brutal perigo em relação a suas versões normais, o que evidencia ainda mais o brilhantismo destes atores. 

O filme se dirige para o fim com cada vez mais mistérios e não parece muito disposto a trazer respostas para estes mistérios, o que aumenta ainda mais o incômodo do espectador. 

Eu, por exemplo, olhei a duração do projeto em alguns momentos pra saber quanto tempo faltava e, quando faltavam apenas dez minutos para acabar, fiquei tipo “tá, mas e aí? Não vai explicar mais nada?” ... e aqui mora o último e maior acerto do diretor: deixar perguntas abertas. O maior triunfo de um filme é quando ele causa reflexão e conversas, e Peele consegue isso com louvor. 

Muitas coisas a serem respondidas trazem muitas interpretações diferentes possíveis e a dialética entre elas é o que torna “Nós” tão interessante e cheio de significado. Pois quando um filme consegue trazer tantas coisas já conhecidas e ao mesmo tempo convergi-las a fim de criar algo inteiramente novo e desconhecido – e, por isso mesmo, mais assustador e perturbador – é possível entender que estamos diante de um novo grande mestre do terror, capaz de unir o básico ao complexo com maestria.

Jordan Peele é, sem dúvida, um gênio.

QUE FILMAÇO.

Nota: 9,5

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Sobre IT - Capítulo 2

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Bem... Vi, enfim, o IT - A Coisa, capítulo 2, adaptação do livro homônimo do Stephen King e blá blá blá, todo mundo já sabe.

Fui sem muita expectativa, apesar de o primeiro filme ter me agradado muito. Embora houvesse uma exigência de este projeto, no mínimo, encerrar satisfatoriamente os conflitos do primeiro filme, eu me enxuguei ao máximo de expectativas e fui sem taaaaanta hype assim, tanto que demorei pra ver.

E saí satisfeito do cinema, posso dizer. O filme, evidentemente, não repete a grandiosidade de seu antecessor e há aqui mais erros, conveniências narrativas e clichês. Mas há os méritos e estes não são poucos.

A proposta do filme, assim como no primeiro, é bem perturbadora. Derry definitivamente é uma cidade bizarra, com gente mais bizarra ainda e isso dá margem a abordagem de muitos temas que são gatilhos para o espectador. Quem tiver traumas com abusos psicológicos ou físicos de qualquer natureza, não deveria ver este longa. E não preciso nem dizer nada com relação ao palhaço, que é um tiro no cérebro de quem tem coulrofobia (medo/aversão a palhaços).

O roteiro começa ágil, com uma tentativa de desenvolver os personagens adultos. Mas dá uma bela engasgada no segundo ato, que se arrasta muito com cenas desnecessariamente longas envolvendo cada um dos personagens e suas alucinações com Pennywise. O ritmo é chato e os sustos, previsíveis. Depois de um tempo fica facílimo prever quando o barulhão vai vir.

Outra coisa... nessas cenas os personagens parecem perder a noção do perigo e são imbecilmente corajosos em situações que normalmente já fariam a gente cagar a bunda inteirinha. Tipo porões escuros e uma casa esquisita com uma pessoa mais esquisita ainda. Tipo... por um lado estes dois projetos meteram os dois pés na porta quebrando o paradigma de que criança não é mutilada em filmes (e neste segundo a coisa é mais violenta ainda para os pequenos) mas susto adoidado e conveniência de gênero tá valendo total? Neste sentido essa sequência é um tanto decepcionante.

O terceiro ato é bem ágil e divertido, mas não gostei das luzes piscando e isso dura praticamente todo o clímax da luta final entre o clube dos otários e Pennywise. Muito incômodo, desnecessário e me tirou muito da imersão. E às vezes é um pouco difícil de entender tudo o que está acontecendo. Mas o desfecho é totalmente satisfatório e cumpre muito bem a missão de concluir a história.

Em suma, a direção do Andy Muschietti é hábil no primeiro e no terceiro atos, mas perde muito a mão no segundo, resultando em um desenvolvimento arrastado.

A atuação dos adultos perde feio para a das crianças, mas é boa. Entre eles os melhores são sem dúvida o James McAvoy e a Jessica Chastain. De negativo propriamente dito talvez apenas o fato de os personagens terem ficado um tanto quanto unidimensionais. O destaque, inevitavelmente, fica para o Bill Skarsgard, que faz um Pennywise ainda mais assustador que antes, bem mais à vontade no papel do que no primeiro filme.

Em resumo... É um bom filme, satisfatório para os fãs desta adaptação, e percebe-se em cada detalhe que foi um projeto de paixão, movido pelo desejo de contar uma boa história. Vale a ida ao cinema.

Nota: 7,5

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Sobre Cavaleiros do Zodíaco (2019) - a série da Netflix

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Vamos comentar um pouco sobre a série de Cavaleiros do Zodíaco na Netflix. O texto conterá SPOILERS, mas bem... É Cavaleiros do Zodíaco e todo mundo da antiga já viu ou deve ter ouvido falar, então não é bem spoiler. De qualquer forma, fiquem avisados.

Muito se comentou há tipo 6 ou 7 meses quando saiu o primeiro trailer sobre a qualidade da animação, que não parecia muito boa. Mas o que mais chamou a atenção é que Shun de Andrômeda seria uma menina, o que conseguiu a façanha de juntar tanto a nata conservadora quanto os SJW (!) em uníssono na crítica.

Mas vamos lá...

Shun não é um problema aqui. A personagem está muito legal e lembra bastante sua contraparte masculina da série clássica. E a dublagem de Úrsula Bezerra está maravilhosa, numa interpretação doce e adorável da amazona de Andrômeda.

Deixando o "problema" pra trás, vamos falar do que realmente precisa de atenção. A série é boa? É ruim? Vale a pena?

Bem, dá pra dizer que... Sim, a série tem qualidades. Mas também tem alguns defeitos que não posso deixar passar. O produto é corajoso ao transpor, sem muitas firulas, todo o estilo visual da série clássica para o CGI. Os efeitos visuais são bons e investiram pesado no visual das armaduras. Todas têm textura e estão com um visual belíssimo.

Por outro lado, a animação tem uns defeitos que ao olhar mais atento são muito toscas. Tem uma cena que o Seiya cai no penhasco e, sério, parece um bonequinho sendo jogado no chão por uma criança raivosa. Os cabelos dos personagens praticamente não têm física: pouco se mexem durante as animações, mesmo quando deveriam claramente se mexer bem mais. Parecem cabelos de resina daqueles dos cloth myths.

Fora que... tirando alguns arranhões nas armaduras, não há dano físico nos personagens. Eles não sangram e tampouco parecem sofrer machucados. É um ponto tremendamente negativo, considerando que na animação clássica havia até (bastante) sangue. Entendo que seja para não aumentar muito a classificação indicativa, mas ainda assim é meio que óbvio que essa série não tem exatamente uma historinha muito infantil e é feita muito mais para fãs da antiga geração.

O roteiro não perde muito tempo com firulas: quase tudo se desenvolve bem rápido - algumas coisas na medida certa, outras nem tanto. E se vale de duas boas sacadas: a primeira é dar todo um contexto de segredo ao mito dos deuses e dos cavaleiros sagrados de Atena. Nesse sentido, uma vez que vimos a ideia ESTÚPIDA de Saori na série clássica ao fazer um torneio aberto ao público com transmissão ao vivo na televisão para o mundo todo ver, é um enorme prazer ver a Guerra Galáctica ser SECRETA, num ambiente super protegido. A outra boa sacada foi uma disputa entre humanos pelo poder místico/tecnológico dos Cavaleiros, envolvendo um novo personagem que lembra muito o líder dos cavaleiros negros na Ilha da Rainha da Morte, Jango. Outra coisa importante

Mas... esse roteiro sofre do que sofreu toda a série como um todo: o fardo de ser Cavaleiros do Zodíaco. Excetuando-se alguma luta aqui e ali que é ágil (Seiya vs Shina e Seiya vs Shiryu) todas as lutas são paradonas e cheias de diálogos maçantes. Alguns diálogos são imensamente sofríveis, incoerentes e vergonha alheia para os padrões atuais, com discursos grandiloquentes mais que batidos sobre amizade e coragem. Qualquer semelhança com a série clássica não é mera coincidência. Além disso, não há muito espaço para envolvimento emocional e criação de tensão, uma vez que os conflitos se desenrolam rapidamente e não parece haver grandes consequências para os personagens. Como dito, nem ferimentos eles sofrem!

Enfim... A série acerta em alguns bons elementos em relação ao clássico, mas erra no que sempre acaba fazendo Cavaleiros do Zodíaco ser... Cavaleiros do Zodíaco.

Fãs velhos vão gostar? Provavelmente sim. Vão gostar, se emocionar e vomitar arco-íris com a qualidade da animação. Vamos lá, até com Saint Seiya Alma dos Soldados a gente se esbalda. Então esse CGI tá bem envolvente pra esse público.

Mas fãs novos não têm lá muito motivo para ficar empolgados, uma vez que a série tem todos os elementos bregas (e os ruins) do original e há animes bem melhores por aí.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Sobre Venom (2018)

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Bom, eu vi Venom finalmente, depois de quase 1 ano enrolando. Não tinha muita vontade de ver antes, ainda mais depois dos comentários à época. Mas ao longo desses meses, a reação foi tão contraditória e tão difusa que me bateu uma curiosidade enorme pra ver.

Primeiro de tudo: fora os simbiontes e o John Jameson no começo do filme, não tem nada de Spiderverse aqui. Então o negócio é aceitar que dói menos. Segundo: precisa de MUITA abstração do Spiderverse pra aceitar ou mesmo gostar desse filme, pois nem Eddie Brock lembra muito o source material. Então o negócio é ver sem expectativa, como eu fiz.

Então... sem miranha o que sobra?

Um filme genérico e nada original de um protagonista zuado e bem-intencionado que cai no fundo do poço enquanto um empresário megalomaníaco genérico tem um plano de povoar outros planetas através de uma "nova raça de seres humanos".

Admitam, vocês já viram esse tipo de filme várias vezes.

O filme é mal escrito e mal dirigido. O roteiro é pavoroso e previsível - vamos lá, não é como se a gente não pudesse sacar o final antes do segundo ato - e os diálogos em alguns momentos são sofríveis no nível "vergonha alheia". Os atores como um todo não parecem ter outra escolha senão a canastrice diante de umas falas que parecem ignorar totalmente como um ser humano funciona.

Tom Hardy é o único que realmente atua aqui e em geral ele está ótimo. Carrega o filme nas costas na maior parte do tempo. A relação com o simbionte se torna a coisa mais legal do projeto, mesmo às vezes sendo inverossímil em alguns momentos. Mas nos tais diálogos sofríveis nem ele faz milagre.

Não há nenhuma grande construção de tensão com o vilão e se não é o simbionte cinza aparecendo pra foder a porra toda no final a gente acha que nem tem vilão no final das contas. E o que foi aquela PORRA de final? Os simbiontes num são fracos pra som? O lançamento do foguete - UM NEGÓCIO BARULHENTO PRA PORRA - simplesmente não afeta o bichão no final, e ele é desintegrado, fazendo a gente pensar que tá tudo bem... E aí na cena seguinte ele simplesmente sobreviveu e é isso aí?

Se o filme não respeita as próprias regras e faz o que quer, por que EU vou respeitar esse filme?

"Venom" é literalmente um longa ruim salvo por um ótimo ator e por um personagem extremamente popular. Se não fosse por Hardy acho que eu teria parado de ver na metade. Claramente um projeto feito pra surfar na popularidade do personagem, e aqui temos o motivo real pelo qual a bilheteria foi tão alta.

Mas aqui entre nós, vamos todos concordar... Sem miranha, este filme é uma grande oportunidade desperdiçada.

Mesmo com a cena pós-créditos.

Nota: 4,5

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Sobre a pelega da vez

Vamo aqui discutir um pouco sobre a Tábata Amaral. Esse é um assunto complicado e que tem gerado MUITA discussão em grupos de esquerda, com foco político-partidário ou não.

Tábata tem origem humilde. Os pais se sacrificaram para que ela pudesse ter uma vida estudantil digna. Ela correspondeu. Credenciou-se em Harvard. Teve uma notável exposição pública em uma bem-humorada discussão sobre astrofísica com Ciro Gomes durante uma palestra do político. Dali em diante ficou meio que implícito que ela seria "pupila" de Ciro.

No ano passado ela foi eleita deputada federal por São Paulo. Aparentemente alinhada com as ideias progressistas e o nacional-desenvolvimentismo de Ciro, ela parecia ser o sintoma - e a esperança - de uma renovação na classe política e uma dialética saudável para a esquerda. E no começo do ano até parecia que seria assim. Tábata deu uma histórica surra no então ministro da Educação (?) Ricardo Vélez Rodriguez, ao questionar sua capacidade de comandar a pasta da qual era líder. E vinha travando bons debates pela educação no congresso antes disso...

Só que... de maio pra cá as coisas tem começado a ficar mais claras sobre o tipo de política que Tábata está fazendo. Confraternizações com políticos de viés totalmente oposto ao que deveria ser o dela (pelo menos até então com o que nos era apresentado por ela), elogios a ela dirigidos pelo MBL e sobretudo a foto com João Dória, governador de São Paulo, indicavam uma aproximação da jovem política com a oposição chapa-branca do congresso, quando não com os interesses do bolsonarismo.

Certa parte da esquerda, que já não ia com a cara de Tábata devido ao alinhamento com Ciro Gomes e com a falta de maior contundência em relação aos desmandos do governo, despirocou de vez com uma declaração muito ambígua da deputada sobre os cortes de Abraham Weintraub na educação. 

"Não estou criticando ele por estar cortando das universidades, estou criticando por estar cortando sem nenhum critério, por razões ideológicas" Aqui, Amaral deixa implícito que, em sua visão, há cortes que poderiam ser feitos na educação, fora da esfera ideológica.

Ali, a esquerda já ficou nas tamancas com a jovem deputada. Mas no Brasil de Bolsonaro, nada é tão ruim que não possa piorar. Esta semana, a reforma da previdência está sendo votada, e muito foi discutido sobre a reforma ao longo desses meses. É consenso entre progressistas (incluindo o próprio Ciro Gomes) e pessoas de esquerda como um todo que a reforma vai prejudicar as pessoas mais pobres, que dependem da previdência para ter uma aposentadoria minimamente digna.

E, claro, um dos pontos de interesse mais importantes da repercussão deste tema no congresso nacional seria o posicionamento de Tábata Amaral nessa história. Ela seria contra ou a favor?

Pois é... Sabem do que mais? 

Ela foi a favor.

Ameaças de expulsão do PDT, às quais se juntaram pedidos de Ciro Gomes de que ela não o fizesse, de nada adiantaram.

Aqui, Tábata oficializou a quebra de qualquer vínculo que pudesse ter com a esquerda ou mesmo o progressismo. E tudo a troco de quê? De "convicção"? De achar que está fazendo o "melhor pelo país"? Votar por essa reforma que prejudica o povo mais pobre e trabalhador porque "ain vai de encontro a tudo o que eu estudei"?

A esquerda fez muito bem em criticá-la e o PDT fará igualmente bem ao expulsá-la se o fizer.

"Ain mas isso não é democracia? Ela agora é traidora porque votou de acordo com suas próprias convicções?"

Democracia é uma delícia mas tem certos custos, já disse um certo político. Democracia também permite a organização de ambientes político-ideológicos nos quais é de bom tom e bom senso manter cumplicidade de pensamento num nível saudável e sem discordâncias pivotais. Isso se aplica, por exemplo, a sua bolha ideológica de redes sociais. Em geral, se você é de esquerda, você não tolera bolsominions fascistoides, certo? E nem precisa. O mesmo vale pra manifestações de rua e, pasmem, partidos políticos.

Ora, o que você acha que acontece se numa manifestação da direita aparece um tio chato que nem o Arthur do Mamãe Falei tumultuando o evento e causando comoção nos presentes? Pois é. Entendeu porque é bom senso manter o mínimo possível de contraditório neste tipo de ambiente? 

Então assim. Ninguém quer manter as coisas acirradas e polarizadas. Mas certos ambientes políticos estabelecem regras de convivência, sejam estas explícitas ou não. No caso de uma manifestação de rua, é um tanto quanto implícito. Com partidos políticos isso já é explícito.

Considerando, pois, o espectro político no qual era presumível que Tábata estivesse - pelas próprias escolhas políticas da deputada antes de ser eleita - o fato é que ela cagou no pau.

É como se um político do PT tivesse feito um puta estelionato eleitoral e... Ops, pera. Que sensação de deja vu.

Então um partido político expulsar uma deputada por não ter respeitado a sua orientação a respeito do voto sobre uma matéria na Câmara não é algo antidemocrático. É apenas coerência com as regras e valores do próprio partido. Aceitem que dói menos. O PDT estará em seu direito se o fizer. Se você não se alinha com as diretrizes políticas do partido no qual se filiou, você está passível de expulsão, e isso faz parte da democracia. O pluripartidarismo está aí pra isso.

Quanto a Tábata... Querida, um conselho: Se é pra se alinhar com as políticas destrutivas deste governo, se antecipe à expulsão e saia do PDT. Abrace-se definitivamente com Doria e o MBL, que te receberão de braços abertos na direita liberal.

A esquerda já te sacou de maneira definitiva.

Beijos.

domingo, 7 de julho de 2019

Sobre o pior melhor piloto 2 - A vingança de Midas

Na real, eu não pretendia fazer outro "textículo" sobre Fernando Alonso.

Achava que tudo naquele texto era totalmente suficiente para falar das agruras do espanhol.

E nem achei que seria necessário falar sobre a passagem de Fernandinho pelo WEC.

Mas sabe como é a vida não é? Às vezes há coisas que você precisava fazer mas não sabia.

À luz de novas informações, achei que deveria fazer alguns acréscimos ao conteúdo daquele texto.

Como já é de conhecimento de todas e todos, o "samurai" Alonso foi se aventurar em terras distantes da Fórmula 1 nos últimos dois anos.

Já em 2017, quando ainda era piloto da McLaren em tempo integral, decidiu participar das 500 milhas de Indianápolis.

Como a corrida estadunidense acontecia no mesmo dia do GP de Mônaco, alguém tinha que brincar no parquinho no lugar de Fernandinho.

Para tanto, Jenson Button saiu da pescaria e foi mijar na McLaren do espanhol.

Naquele dia, Fernando fez uma corrida inspirada após largar da quinta colocação. Chegou a liderar, disputou roda com roda com os melhores da Indy.

Poderia até ter ganho.

Mas o motor Honda, sempre ele, cansado de guerra, aprontou das suas. A 22 voltas do fim, abriu o bico e deixou Alonsito a pé.  Foi por pouco.

Contudo, foi mais uma pá de cal sobre a relação turbulenta entre o espanhol e a fabricante japonesa.

Alonso já estava de saco cheio da Honda. Nunca fez questão de esconder ou amenizar este sentimento público. Desde 2015 já havia sido assim.

No final daquele ano, McLaren e Honda acabaram prematuramente com o acordo, em grande parte por influência de Fernando.

A Honda foi para a Toro Rosso em 2018 com vistas para a Red Bull em 2019. A McLaren adotou motores Renault - a fabricante francesa ficaria no time das latinhas apenas mais um ano, 2018.

Em troca, a Renault ficou com Carlos Sainz "emprestado" da Toro Rosso até o final daquele ano - Sainz foi para a McLaren em 2019.

Pode parecer meio prolixa essa parte do texto, mas tem uma justificativa...

Já pararam pra pensar no tamanho da reação em cadeia provocada nas equipes de Fórmula 1 apenas porque Alonso não quis mais a Honda na McLaren?

Em última instância, ele movimentou equipes e pilotos que, em tese, eram estranhos (ou talvez devessem ser) ao seu poder de influência.

O objetivo? Mudar de motor e mandar a Honda pr'aquele lugar.

Mas calma... Quando se trata de Fernando Alonso e relações humanas em equipes, nada é tão ruim que não possa piorar.

O ano era 2018. Fernandinho, decidido a conquistar a tríplice coroa do automobilismo, já tinha em sua mira a próxima tentativa: ganhar as 24 horas de Le Mans.

Então, ele assinou contrato com a Toyota para disputar o WEC, no que ficou conhecido como "Super-Temporada", um campeonato de dois anos que teria nada menos que oito corridas.

Entre elas, duas edições da histórica prova no Circuit de la Sarthe.

Até aí, tudo bem. Só que... a Toyota seria a única fabricante no torneio entre os LMP1, ao passo que a Porsche abandonou a brincadeira.

O motivo? Foco nos carros elétricos e um programa na Fórmula E. AMercedes está seguindo os mesmos passos.

Mas beleza... Haveria alguma disputa com os LMP1 na categoria, uma vez que ainda havia os LMP1 privados, certo?

É... Não.

O regulamento da Super Season 2018-19 contava com um bizarro "sistema de penalizações".

Com esse sistema, os LMP1 não-híbridos, das equipes privadas, seriam punidos se tivessem rendimento superior à Toyota, único time com carros híbridos.

A justificativa? Para os organizadores, era virtualmente impossível um LMP1 privado ser mais veloz que a Toyota sem "trapaças".

Não colou. Todos criticaram na época.

Pouco antes do tal sistema de penalizações ser anunciado, Nelsinho Piquet, antigo companheiro de Alonso uma década atrás, havia disparado em entrevista que "a categoria iria fazê-lo ganhar".

E foi essa a impressão que ficou. Que o WEC moldou o regulamento para que o campeonato caísse no colo da Toyota. E fazer a maior estrela do show brilhar.

Quase 1 ano e meio depois, Alonso foi campeão mundial de Endurance. Primeiro título mundial após 13 anos de seca.

E foi bicampeão das 24 horas de Le Mans.

Muito bonito para o álbum de fotos. E belos números para o livrinho de efemérides.

Resultados que contribuem para elevar ainda mais a marca de "lenda" que Alonso tanto deseja deixar na história.

Mas... Sejamos francos. Havia realmente alguma GRANDE chance de que os resultados não fossem EXATAMENTE estes?

Quero dizer... A Toyota correu algum risco de perder este campeonato?

Porque sejamos francos... As chances eram mínimas. Beiravam o 0%.

Alguns poderiam dizer que o imponderável ronda com frequência as corridas de Endurance.

Outros dizem aquelas frases meio apoteóticas como "Le Mans é que escolhe o vencedor".

E em geral podem até estar certos. Em corridas tão longas, coisas estranhas podem acontecer. Uma falta de atenção, um carro que abre o bico, etc.

Ainda mais com a Toyota, que antes de 2018 nunca venceu em Le Mans.

Contudo, prezados... Com a devida vênia, há algumas coisas a dizer sobre isto.

Existe um limite de flerte com o imponderável. Antes desse limite você pode desejar todo o tipo de absurdo em termos de probabilidade.

Depois desse limite, tudo o que resta é aceitar a realidade dos fatos e da lógica.

A Toyota teve o melhor carro o tempo todo. Teve tripulações consistentes nos dois carros, entre eles QUATRO pilotos ex-F1 (Alonso, Kobayashi, Buemi e Nakajima).

Como se não bastasse, um regulamento que literalmente PUNIRIA quem fosse melhor do que eles.

A única chance de melar essa festa seria os dois carros ficarem quebrando o tempo todo.

Quais seriam as chances disso acontecer? Uma para dez milhões?

Isso não é bem uma crítica ao Fernando Alonso, ele que comemore à vontade suas conquistas.

Apesar de tudo, é pura história escrita e independentemente disso, ele já é uma lenda viva do automobilismo.

Contudo, qual o real mérito do espanhol em vencer uma competição onde a única dúvida era, basicamente, qual dos dois carros da MESMA equipe cruzaria em primeiro a linha de chegada?

Não bati palmas quando o campeonato começou. Não bati palmas agora. Não que minha aprovação ou desaprovação seja algo realmente importante.

Se as pessoas realmente gostam de aplaudir teatro de cartas marcadas, elas que o façam a seu bel prazer. Não faço questão de tomar parte nisso.

Mas sabem do que mais?

Nem a relação Alonso-Toyota passou incólume. É sério.

De acordo com o diretor da Toyota no WEC, Rob Leupen, Alonso "causou atritos". A seguir a fala completa do cartola.

A gente viu algumas faíscas se soltando. De qualquer forma, eu sinto que alguém como ele, que não é tão fácil de lidar, sempre vai trazer algum tipo de incômodo. Foram apenas algumas coisas, mas não posso confirmar o que os outros disseram sobre ele no passado. Não os conheço bem. Mesmo assim, nós gostamos de contar com alguém como ele, desse tamanho. Foi bom, a jornada terminou em um bom momento.

Quer dizer... Foi um campeonato LITERALMENTE montado para o cara vencer, e ainda assim ele conseguiu causar problemas dentro da equipe?

Reparem no "a jornada terminou em um bom momento".

Sabem o que ele realmente quis dizer? Que faltou pouco, mas MUITO pouco, pra ele mandar Fernandinho pr'aquele lugar.

E vocês realmente especulam a volta de um sujeito desses para a Fórmula 1?

Apenas imaginem a quantidade de problemas que ele causaria, por exemplo, numa Red Bull, disputando atenções com um Max Verstappen da vida.

No texto anterior, eu disse que Alonso foi o pior melhor piloto que a Fórmula 1 já produziu.

Eu estava redondamente enganado.

Ao ter conseguido causar problemas até mesmo quando não apenas uma equipe, mas também um campeonato INTEIRO giraram ao seu redor...

Fernando Alonso é, provavelmente, o pior melhor piloto da história do automobilismo.

Para o bem e para o mal, é o Rei Midas do esporte a motor.

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quinta-feira, 4 de julho de 2019

Sobre o pior melhor piloto

Nunca fui um grande fã de Fernando Alonso.

Muito pelo contrário, para falar a verdade. 

Quem me conhece há mais tempo ou leu este blog nos primeiros anos dessa década, sabe de meu desgosto com a figura do espanhol.

Seja por seu senso de si mesmo, exageradamente elevado, seja pela necessidade de auto-afirmação.

Essas duas coisas são até compreensíveis e explicáveis. Alonso passou mais de uma década remoendo promessas que nunca chegaram a se concretizar.

Dono de dois títulos mundiais de Fórmula 1 já distantes, em 2005 e 2006, há quem diga que Alonso merecia muito mais.

E eu concordo.

Que ninguém se engane. Considero Fernando Alonso um dos melhores pilotos da história do automobilismo e isso transcende sua própria história na Fórmula 1.

Os já mencionados dois mundiais conquistados pelo espanhol na categoria máxima, junto com suas 32 vitórias, 22 poles e 97 pódios são números expressivos.

Longe de contemporâneos como Lewis Hamilton e Sebastian Vettel, mas sem dúvida ótimos números.

O próprio Fernando acredita que merecia mais. E, como disse, eu concordo.

Embora haja... hummmm... Como se diz mesmo? Hummm... controvérsias.

Alonso quase sempre teve um péssimo senso de oportunidade ou mesmo de gerenciamento do futuro de sua carreira.

E digo "quase" porque soube muito bem aproveitar a drástica mudança de regulamento em 2005, que desbancou a então poderosíssima Ferrari e empoderou Renault e McLaren, que disputaram o título daquele ano.

Depois disso, só derrocada. Tanto em resultados quanto em controvérsias.

Em 2007, tomou um pito enorme do então estreante Hamilton numa McLaren que deveria ser dominada por ele.

E foi pivô do absurdo escândalo de espionagem que desclassificou sua equipe, em trocas de e-mail com Ron Dennis, fazendo chantagem com o chefe.

2008-2009, esteve envolvido no Singapura-Gate, no qual Nelsinho Piquet bateu propositalmente para influenciar o resultado do GP de Singapura, vencido por ele. 

2010. o famoso "Fernando is faster than you", que depôs Felipe Massa da liderança do GP da Alemanha, após o espanhol gritar pelo rádio "This is riddiculous" enquanto o brasileiro o mantinha atrás. 

Lembro-me como se fosse hoje do constrangedor pódio. Fernando de sorriso a sorriso. Ignorando completamente o ocorrido em pista.

No final daquele ano, Alonso era franco favorito ao campeonato. perdeu o título para Vettel após uma disputa com o russo Vitaly Petrov durante quase toda a corrida.  Inconformado, quase jogou a Ferrari contra a Renault de Petrov após a bandeirada.

Nos anos seguintes, amargou uma série de temporadas muito aquém do esperado com a Ferrari. E sabem do pior? Fernando nunca perdia a chance de cutucar publicamente sua equipe, sobretudo em entrevistas. O clima só piorava a cada uma delas.

Em 2012, quando era de novo favorito, fez uma série de corridas fracas ao final do ano e viu Vettel, seu algoz dois anos antes, novamente tomar-lhe a conquista.

Nos anos seguintes, perdeu força política interna, o que se agravou com a saída de Domenicalli. A Ferrari começou a ficar de saco cheio. Acabou demitido do time italiano por Marco Mattiacci, após todas as farpas trocadas com o time.

Para 2015, um retorno à McLaren estava no caminho do espanhol, com direito a abraço em Ron Dennis e tudo. 

A Honda voltava à Fórmula 1 e, ora vejam, equipando os bólidos do time inglês, reeditando a vitoriosa parceria ocorrida entre 1988 e 1993! O que poderia dar errado?

...

Acabou dando tudo errado.

Foi uma merda. O motor era fraco e dava problema o tempo todo. 

O chassi, que diziam ser um dos melhores do grid, também não era essa coca-cola toda.

Para completar, eles tinham atrás de um dos volantes ninguém menos do que Fernando Alonso.

E sabem do que mais? Foi ótimo.

Diverti-me à beça vendo Fernandinho comer o pão que o diabo amassou.

Credo, que delícia. Digo, que absurdo. Não senti pena alguma.

Digam o que quiserem. O fato é que Alonso cavou a própria cova ao longo desses anos todos.

Tornou o ambiente de trabalho insustentável em praticamente todas as equipes pelas quais passou. A demissão da Ferrari não foi por acaso.

Em 2015, no Japão, em plena Suzuka, circuito de propriedade da Honda, berrou pelo rádio "GP2 Engine! GP2!".

Os pouco memoriados não hão de lembrar mas eu tenho bastante memória. Alonso desenvolveu um enorme ressentimento em relação a Vettel. 

E não fez muita questão de esconder este fato. Seja em entrevistas, seja em disputas de pista.

Quando entrevistado, frequentemente fazia questão de não mencionar o alemão na lista dos melhores da Fórmula 1. Ou de cutucá-lo de alguma forma.

Durante os anos de McLaren, não raro o vi dificultar a vida de Sebastian quando claramente não tinha ritmo para segurá-lo. Isso sem contar a controversa ultrapassagem no GP da China de 2018.

Lá no começo do texto, disse que concordava que Alonso de fato merecia mais.

Mas... lanço-vos duas questões.

A primeira... será que ele realmente fez valer a ideia de que merecia mais?

Por todo o seu retrospecto turbulento e controverso e pelas tentativas mal-sucedidas de ascender a equipes melhores com o fracasso na McLaren, a resposta óbvia é "não".

O que nos leva à segunda pergunta...

Será que a Fórmula 1 realmente sente falta de Fernando Alonso?

Claro que há todo o apelo midiático, carisma público e o aspecto de "lenda" do piloto, que movimentam legiões de fãs do mundo inteiro. 

Entre os pares (exceção talvez a Magnussen, mas quem é Magnussen?) Alonso era bem popular também.

Mas ali no núcleo duro da categoria, entre dirigentes de equipes, não me parece que o espanhol arrasa corações.

Especulou-se uma volta de Fernandinho ao certame. Recentemente o asturiano disse que só voltaria à F1 em carro para ser campeão. Alegou ter negociado com a Mercedes.

Mas nem o time alemão, nem Ferrari e Red Bull o querem. Sabem dos potenciais problemas. E já têm seus pilotos-estrela. 

E convenhamos, ele não voltaria para andar em pelotão intermediário numa Fórmula 1 na qual os times grandes se distanciam cada vez mais dos médios.

E sabem do que mais? 

Tanto McLaren quanto Honda melhoraram quando Alonso saiu fora da brincadeira. 

2019 está sendo um ano de evidente melhoria nas últimas corridas para o time inglês.

A Honda, quatro anos depois do "GP2 Engine", voltou a vencer.

Tudo isso nos leva a uma conclusão um tanto quanto inevitável, embora um tanto triste...

Dono de inquestionável talento, números respeitáveis e fome de resultados, mas uma personalidade tóxica e capaz de destruir tudo ao redor de si quando as coisas não saem do jeito que quer...

Alonso é provavelmente o pior melhor piloto que a Fórmula 1 já produziu.

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sábado, 22 de junho de 2019

Sobre o possível canto do cisne de Vettel

Não acho que Sebastian Vettel vá durar muito mais na Fórmula 1. Ou no automobilismo.

Não me parece absurdo pensar isso.

Não se enganem. Sou fã de carteirinha do tedesco. Torci por ele na Red Bull e hoje continuo torcendo para ele na Ferrari. 

Voltei até a gostar da equipe italiana, pois não me descia Alonso ali dentro.

Vettel é um grande piloto. Fez uma carreira vitoriosa na Fórmula 1. 

Resultado de imagem para Sebastian Vettel 2013Conhecido no começo da carreira como um sujeito muito propenso a erros, ele se tornou um piloto relativamente regular durante seus "anos de ouro".

Nunca foi afeito a esses hábitos contemporâneos de internet. Não usa redes sociais.

Não tem Facebook ou Twitter. Dizem as más línguas que criou um Instagram, mas desconfio da autenticidade.

Seus quatro títulos mundiais, 52 vitórias e 56 poles são um currículo mais do que espetacular. 

Mas os anos seguintes às conquistas do alemão não foram muito gentis.

Em 2014 foi sistematicamente batido por Daniel Ricciardo. O australiano era quase um novato, fazendo naquele ano sua estreia em uma equipe grande. O pior ano do alemão na Fórmula 1.

No ano seguinte, 2015, Vettel foi para a Ferrari. 

Fez um ano excelente, amealhou três vitórias no ano e abriu as especulações para um duelo direto com Lewis Hamilton, seu velho rival de Fórmula 3.

2016, novo apagão. A Ferrari fez um carro ruim. Vettel e seu companheiro, Kimi Raikkonen, sofreram. Nenhuma vitória.

Ao mesmo tempo, Nico Rosberg batia Lewis Hamilton pelo título daquele ano. O canto do cisne de Nico na Fórmula 1.

2017. O caminho para Hamilton se tornar o maior de todos os tempos dentro da melhor equipe da Fórmula 1 estava totalmente aberto. 

Ainda mais com o inexpressivo Bottas como companheiro.

Seu único adversário seria Sebastian Vettel, se - e somente se - a Ferrari acertasse a mão no carro.

E ela acertou.

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Vettel conseguiu resultados muito bons no começo de 2017. Vitórias maiúsculas. 

Parecia que ele tinha de fato um calibre muito semelhante ao de Hamilton.

Mas chegou o GP de Cingapura. E aquela batida bisonha entre Vettel, Raikkonen e Max Verstappen. Naquela noite, Hamilton aproveitou e venceu.

Como também venceu o campeonato. Igualou os títulos do alemão.

2018.

Ferrari e Vettel mordidos pela perda dos campeonatos.

Ferrari novamente acertou a mão. Houve quem especulasse inclusive que a escuderia italiana tinha um carro melhor.

Vettel novamente começou muito bem o campeonato.

Chegou o GP da Alemanha. Sebastian havia partido da pole.

Resultado de imagem para Sebastian Vettel HockenheimringEstava tudo indo bem e a corrida parecia se encaminhar para uma vitória do piloto da Ferrari em casa, diante de sua torcida.

Mas aí choveu.

Embaralhou tudo. Sebastian Vettel, que reconhecidamente um dos melhores pilotos do grid sob pista molhada, simplesmente errou e bateu. Abandonou.


Começou uma rebimboca da parafuseta. Vettel começou a protagonizar pelo menos um erro em cada uma das corridas que disputou até então.

Exceção feita, talvez, ao GP da Bélgica, onde venceu incontestavelmente.

Mas uma sucessão de erros bisonhos do alemão fez com que ele novamente perdesse o título.

Ali não tive mais dúvidas. Não queria reconhecer, mas hoje consigo admitir... 

Lewis Hamilton é um piloto melhor do que Sebastian Vettel.

Objetivamente. E até em números. 

É mais veloz em qualificações, mais consistente em corridas e atualmente erra pouquíssimo. 

E se tornou psicologicamente muito forte após o tombo de 2016.

Devo lembrá-los de que quem ora vos escreve é um de Vettel. E alguém que não vai muito com a cara de Hamilton.

E não tenho problemas para admitir isso.

E chegamos até 2019.

Raikkonen deixou a Ferrari e foi brincar de correr no pelotão intermediário com a Alfa Romeo.

Em seu lugar entrou o monegasco Charles Leclerc. Excelente piloto, que já vinha mostrando a que veio no ano anterior.

Vettel já começou o ano "bem". Bateu nos testes em Barcelona.

O ano começou mal para a Ferrari, ao passo que a Mercedes engoliu praticamente todas as corridas até o momento - todas com dobradinha exceto Mônaco e Canadá.

Leclerc, por sua vez, tem pavimentado de forma quase incontestável seu caminho na Ferrari.

Na primeira corrida já deu canseira no companheiro. Não fosse uma ordem de equipe, provavelmente o teria superado.

No Bahrein já fez uma pole impressionante. Teria ganho a corrida não fosse um problema em seu motor. 

Na mesma corrida Vettel pipocou em uma disputa de posição contra Hamilton e rodou.

Dali em diante estava claro que o tedesco passaria sufoco dentro da equipe. 

Charlinho era bom demais.

Nas corridas seguintes, a Ferrari começou a prejudicar Leclerc nas estratégias. 

Reflexo da péssima e atrapalhada direção da equipe. 

Simultaneamente, Sebastian simplesmente não entregava o que dele se esperava. 

Seu primeiro "grande" resultado do ano acabou sendo o segundo lugar em Mônaco, graças a uma contestada punição aplicada a Verstappen.

E aí veio o GP do Canadá.

Seb brilhou. E brilhou com luz similar à sua época gloriosa. Como há muito não fazia.

Uma pole espetacular.

E iria vencer a prova, não fosse aquele erro. 

Um erro humano e compreensível. 
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Mas um erro. 

Foi punido. Perdeu a vitória. Ficou puto. Com razão.

Ainda assim, cometeu um erro. 

Erros tomam parte muito significante no currículo recente do alemão.

Ao mesmo tempo, Vettel tem se mostrado muito desanimado com a Fórmula 1.

Ferrenho crítico aos regulamentos atuais e aos motores pouco barulhentos desde 2014, ele parece estar começando a ficar realmente de saco cheio.

Já se especulava que ele poderia deixar a categoria ao final do ano.

Se for verdade, a punição em Montreal pode ter ajudado ainda mais nessa vontade.

A qualificação para o GP da França, hoje, pode ter sido mais um sinal dessa indisposição.

Sétimo lugar com uma Ferrari e atrás das duas McLaren é muito pouco.

Não seria realmente um espanto se ele anunciasse a aposentadoria. 

Resultado de imagem para vettel hanna prater weddingVettel já não é mais o mais jovem a fazer tudo na Fórmula 1. 

Tem quase 32 anos. Acabou de se casar. Casou-se, aliás, com Hanna Prater, mulher com quem começou relacionamento desde a escola. Tem duas filhas lindas.

"Amante à moda antiga", dizem.

Enfim. 

Não é mais um garotão de tudo. É um homem feito, com uma família para amar e cuidar.

Tem muitas responsabilidades que vão além da diversão de correr a mais de 300 km/h arriscando o cu em um carro de corrida que quase bate no chão.

Ele se aposentar agora não seria nada absurdo.

E tampouco apagaria seus méritos como piloto.

Não se tornou o melhor piloto de todos os tempos. Nem mesmo de seu próprio tempo.

E nem repetiu os feitos de Schumacher.

Mas escreveu sua própria história no automobilismo. Uma linda história.

Depois de Schumacher, Vettel é e sempre será o meu piloto número 1.

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sexta-feira, 21 de junho de 2019

Sobre gente desmemoriada

"Eu não tenho o menor interesse na opinião do povo. Quase sempre ele está errado. Aliás, a opinião de muito pouca gente me interessa. A democracia sempre foi salva pelas elites e posta em risco justamente pelo “povo”, essa entidade. Vai acontecer de novo."

Reinaldo Azevedo escreveu a frase acima, em seu blog da VEJA em texto entitulado "É Lula de novo com a culpa do povo", 13 anos atrás, quando da reeleição do ex-presidente Lula em 2006. 

Azevedo não é um contumaz defensor da ordem legal e institucional por acaso. Como todo liberal que se preze, é defensor da manutenção do status quo, qualquer que seja. A frase acima é muito sintomática deste fato. Fazendo aqui uma mera suposição hipotética: Apenas imaginem Azevedo sendo um jornalista ancorando um jornal impresso em 1888. Escravidão sendo "abolida" (entendedores entenderão as aspas) e um ano antes da proclamação da república. Será que ele defenderia a escravidão? Será que defenderia a monarquia 1 ano depois? Não seria uma suposição absurda, sendo ele legalista como é.

Esta frase acima, por exemplo, considero de uma maldade explícita. Ora, por uma perspectiva positivista, Reinaldo até estaria certo: sempre foram as elites a protagonizar os grandes acontecimentos políticos do país. Mas pela perspectiva marxista da luta de classes, fica bem mais compreensível o tamanho da crueldade: o povo sempre foi excluído das grandes narrativas positivistas. O povo quase nunca teve vez ou voz nas "revoluções" e quando teve, sofreu violentas repressões por parte do estado.

Que ninguém se engane: considero Reinaldo Azevedo um dos principais jornalistas do país. Apesar das frequentes discordâncias, acho que a coesão de ideias que geralmente pauta seu trabalho só é igualada pela sua extensa leitura e o arcabouço político, jurídico e literário que compõe seus conhecimentos.

Mas muito me preocupa a aparente admiração que certos setores da esquerda parecem estar desenvolvendo pela pessoa do âncora da BandNews FM. Alguns parecem até ter esquecido o tanto que Reinaldo bateu no PT e nas esquerdas (sendo o criador do famigerado termo "petralha").

O trabalho jornalístico de Reinaldo pode estar sendo útil agora contra o lavajatismo e as sucessivas tentativas de ruptura institucional pelo governo Bolsonaro e os desmandos cometidos pela Lava-Jato e seu líder, Sérgio Moro.

Porém, com a devida vênia, é importante lembrar-vos a todos uma coisa IMPORTANTÍSSIMA:

Reinaldo não está fazendo isso apenas porque é "defensor de ideias liberais" e tudo o mais que frequentemente bate no peito com orgulho para dizer. Está fazendo isso porque é um defensor contumaz do status quo, das leis e da ordem institucional, sejam estas quais forem. Fosse essa ordem um instrumento de opressão das classes trabalhadoras (e na verdade, em análise mais profunda, é construída para ser assim) não é muito difícil imaginar que ele a defenderia com unhas e dentes.

Na verdade, até defende. Chamou a polícia para prender a jornalista Anita Krepp em 2014 quando esta cobria manifestações anti-Dilma. O motivo? Nas palavras da própria, ela "estava tirando fotos de um vagão movimentado no qual, por acaso, estava ele". Informação verificável neste link.

E é bem fácil entender porque ele o faria. Afinal, ele disse as palavras com as quais comecei esse texto. Ele não se interessa pela opinião do "povo". Ele não é parte desse povo. É apenas um excelente jornalista do ponto de vista do trabalho que faz (e está fazendo) e que no momento atual, cumpre um papel de suma importância para a democracia, a defesa da liberdade de expressão e da liberdade de imprensa. 

Mas este mesmo Reinaldo "batia" no PT (como ele mesmo diz) tacando um belo de um foda-se para a opinião de gente como você ou eu. O povo.

Essa "falta de memória" da esquerda não é de forma alguma endossada ou patrocinada pelo jornalista: ele sempre faz questão de deixar claro que não virou a casaca. Que continua sendo um autêntico liberal - isto é, com predileções pelo estado de direito burguês - e de convicções bastante conservadoras sobre certas pautas morais, como aborto e drogas por exemplo.

Não percam vossas preciosas memórias em prol de "alianças" frágeis.

Depois que acabar a guerra contra o lavajatismo, Reinaldo vai continuar fazendo o que todo bom liberal faz: defender o lobby da iniciativa privada, privatizações, manutenção da criminalização do aborto, das drogas psicoativas e a famigerada reforma da previdência (que ele já defende com unhas e dentes).

Em última instância, Reinaldo é um dos grandes responsáveis pelo anti-petismo doentio que elegeu Jair Bolsonaro e alçou ao poder a quadrilha que hoje nos governa.

Cooperação consciente, sim. Admiração desmemoriada, jamais.

A frase acima é importantíssima para que a esquerda enxergue Reinaldo como aquilo que ele de fato é, não como gostariam que fosse. E que receba seu apoio contra o lavajatismo, sem esperar nada além disso. Se tem uma esperança que podemos de fato ter a partir da "aliança" com Azevedo, essa sim é a de que pessoas fora da nossa bolha de esquerda venham a enxergar o quanto a Lava-Jato destruiu o país.

¡NO PASARÁN!

domingo, 5 de maio de 2019

Sobre Ingrid Guimarães X Vingadores (ou como parecer uma piada na internet mesmo querendo ser levado a sério)

Estou há meses sem realmente INTERAGIR em redes sociais. 

Facebook e Instagram olho de vez em quando só pra ver como é que tá a movimentação. E tá cada vez pior, então nada de voltar agora.

Daí, estava eu de boa fuçando nas internet e de repente me vem a ideia de olhar o Facebook, pra ver o que tá rolando. Fazia muitos dias que eu nem lembrava disso.


Aí, eu vi essa imagem.


Resultado de imagem para ingrid guimarães vingadores
Primeiramente achei que fosse meme da atriz, talvez ela quisesse surfar no sucesso de Capitã Marvel pra fazer algum marketing positivo para a tal comédia que ela iria estrear.

(Apesar de que a montagem ficou, ó, uma bosta)

"De Pernas pro Ar 3", o nome da... obra. 

Não sei se obra artística ou obra de cachorro, não fui ver pra saber. Mas dizem as más línguas que foi a segunda opção. 

Não duvido, mas também não tenho opinião formada. Há, porém, quem diga que é uma ótima comédia, porém genérica.

Daí eu fui olhar o texto que acompanhava a imagem...

Mas era coisa séria. Ao menos... pretendia. 

Dizia: "Super-heroína do cinema nacional. Super-poder: manter filmes nas salas de cinema com filmes falados em nossa língua".

Ainda pareceu meio idiota. Mas depois fui ler as notícias a respeito disso.

"Vingadores: Ultimato ocupa 92% das salas e reacende polêmica sobre o cinema nacional";
"Cinema nacional se vê ameaçado por Vingadores";
"De Pernas pro Ar 3 perde salas para Vingadores";
"Ingrid Guimarães tem prejuízo gigantesco com estreia de Vingadores: Ultimato"

Eu adoro o cinema nacional, deixo isso bem evidente logo no começo.

Não sou um grande entusiasta, mas de vez em quando assisto aos filmes nacionais. as comédias e saio do cinema muito satisfeito, pois são divertidas, apesar de a maioria ser genéricas. 

Tivemos um grande respiro na comédia nos últimos anos, com os geniais dois filmes "Cine Holliúdy", do cearense Halder Gomes. Dois ótimos filmes.

Já vi "O Auto da Compadecida", os dois "Tropa de Elite", "Assalto ao Banco Central", "Cidade de Deus"... 

E aquele que, a meu ver, é o melhor filme brasileiro que já vi: "Batismo de Sangue".

Vi poucos, é bem verdade. E não vi a maioria daqueles que são de fato tidos como os melhores. 

Mas apesar disso, posso dizer que gosto da ideia de o cinema nacional ser incentivado pelo estado.

Não só gosto, mas sob outras circunstâncias, eu até acharia que, até certo ponto, a reivindicação de Ingrid Guimarães a favor do cinema brasileiro estaria 100% correta. 

Numa época em que a cultura no Brasil vive um estado de constante ameaça em seus alicerces, com um governo obscurantista que diariamente ataca a educação e a cultura, é necessário manter vozes ativas de oposição e combate a essas forças.

Sou contra acabar com a Lei Rouanet e os sistemáticos ataques aos artistas brasileiros que têm ocorrido nos últimos anos, por parte da extrema-direita que tem tomado conta deste país. 

Entre outras coisas nas quais não me alongarei aqui, pois não são o foco do texto.

Contudo... não me parece que o interesse REAL da atriz de "De Pernas pro Ar 3" seja o de defender a cultura e o cinema nacional.

Tanto ela quanto a Globo parecem mais interessadas em defender o sucesso comercial de seu filme, completamente arrasado pelo sucesso dos "Vingadores".

Não a vi se posicionando em apoio a Wagner Moura quando "Marighella", longa do ator-diretor, foi severamente atacado nas redes sociais, por exemplo.

Ao mesmo tempo, a Globo, através de um editorial, lança um texto lamentável falando sobre como o filme da atriz - que por acaso é sua contratada - é um baluarte do cinema brasileiro frente ao filme predador da Marvel, e que o longa dos Vingadores servia unicamente para mostrar como o CGI era foda e tudo o mais.

Pra piorar a situação, o editorial cita a opinião de Ivan Finotti, colunista da Folha de São Paulo, sobre "Vingadores", de que era "o filme mais chato de 2019" (por sinal, uma opinião totalmente isolada entre TODA a crítica especializada).

É... Fica difícil defender quando o texto segue uma linha de pensamento editorial que parece preferir se fechar numa bolha de pensamento, no qual todos estão errados e ele está certo.

E outra coisa... Por mais que eu não seja um cinéfilo, e muito menos um grande entusiasta do cinema nacional, como já disse, há uma coisa que me incomoda bastante nesta seara... 

Não há muita variação nos gêneros de filmes produzidos aqui.

Consultando a lista dos 100 melhores filmes nacionais, feita pela Abraccine (Associação brasileira de críticos de cinema)... Vemos um padrão.

Geralmente é drama, comédia e romance.

Dos 100, aproximadamente metade são de drama. 10 são comédias. Apenas 7 são documentários.

De vez em quando filmes de ação e policiais, como os "Tropa de Elite". Suspense, menos ainda.. Teve três filmes de terror, dirigidos pelo Zé do Caixão. Todos dos anos 60.

Recentemente, tivemos uma interessante tentativa de produzir um filme de super-herói brasileiro, com "O Doutrinador". 

O filme recebeu diversas críticas mistas, mas o aspecto mais elogiado foi a inovação ao tentar trazer o gênero para terras tupiniquins.

O fato é que talvez precisemos de pessoas dispostas a diversificar o tipo de produções feitas por aqui.

Precisamos de mais filmes como "O Doutrinador" e menos como "De Pernas pro Ar". 

Mais filmes autorais e inovadores, que erram tentando acertar em algo genuinamente novo.

Menos comédias genéricas.

Mas tem um aspecto que ainda não abordei nesse texto, e que é essencial para que a minha opinião seja de fato entendida.

Por mais que abracemos com força o idealismo sobre como o cinema nacional pode ser melhor se simplesmente abrirmos "cotas" para filmes nacionais nos cinemas, e eu até concorde com isso em alguns aspectos...

As regras de praticamente todo o mercado capitalista são predatórias. E o cinema não é exceção.

No cinema, contudo, você tem uma maneira de evitar complicações com a arrecadação financeira do seu produto: você pode escolher o timing de lançamento desse produto. 

E escolher o melhor momento para lançar um filme pode fazer toda a diferença sobre o sucesso que ele pode vir a ter ou não nas bilheterias.

A própria Disney viveu, 17 anos atrás, situação parecida (em escalas muito diferentes, claro) com a que vive Ingrid Guimarães hoje. 

Em novembro de 2002, a empresa do Mickey Mouse decidiu lançar "Planeta do Tesouro", até hoje tido como um dos melhores filmes de animação já feitos. Na mesma época, a Warner Bros lançava "Harry Potter e a Câmara Secreta", segundo capítulo da saga de J.K Rowling

Arrogante, a companhia do rato achou que seu lançamento, por levar o selo Disney, não teria problemas para bater o filme da rival, que havia sido um fenômeno de público no primeiro filme e prometia ser um novo grande sucesso.

Assim, esta se provou uma péssima decisão estratégica. O longa conquistou as salas de cinema pelo mundo e fez US$ 879 milhões mundialmente, contra apenas US$ 109 milhões de "Planeta do Tesouro". 

Hoje a Disney parece ter aprendido sua lição de casa. Timing para lançamento em cinema é TUDO.

Independentemente de qualquer opinião que você, eu ou qualquer outra pessoa possamos ter, o fato é que Vingadores: Ultimato é o maior evento da história do cinema. É o ato final de um universo cinematográfico que demorou 11 anos para chegar em seu ápice. 

Que reuniu todo um público cativo e apaixonado ao longo de todos esses anos. Pessoas que brigaram para assistir o filme nos primeiros dias, mesmo após a estreia. 

Nas salas lotadas, o público transformava o local em arquibancada de estádio e as emoções tomavam forma nas reações dos espectadores conforme o filme ia se desenrolando.

Sob QUALQUER circunstância, a disputa para outros filmes FATALMENTE se tornaria desleal. Com cotas ou sem cotas para qualquer filme, de qualquer nacionalidade. E isso deveria ser encarado naturalmente. 

Até Shazam, filme recente da DC Comics/Warner, sofreu os efeitos da concorrência com "Ultimato". Nenhuma surpresa.

Manter qualquer filme em evidência num cenário como esse, quando você tem que disputar contra todo um evento cinematográfico, seria tarefa ingrata. 

E todo mundo sabia disso. 

Os estabelecimentos de cinema, que não são bobos, muito menos. Após perceberem o tamanho do impacto financeiro que teria a arrecadação de "Vingadores", salas que seriam de "De Pernas pro Ar 3" e provavelmente até de "Shazam" e de outros filmes, foram realocadas para o filme da Marvel.

E isso aconteceu em TODO O MUNDO. Não apenas no Brasil.

Mas a "super-heroína" (tsc) Ingrid Guimarães discorda. 

Não sei se a atriz tem um senso meio distorcido acerca de sua própria relevância, ou só está com dor de cotovelo pelo sucesso do filme "rival" - muitas aspas para a palavra "rival", por motivos óbvios - ou as duas coisas.

Porque acha que seu filme, uma comédia nacional genérica, deveria conseguir disputar com o maior evento cinematográfico de todos os tempos. 

Em igualdade de condições.