domingo, 5 de maio de 2019

Sobre Ingrid Guimarães X Vingadores (ou como parecer uma piada na internet mesmo querendo ser levado a sério)

Estou há meses sem realmente INTERAGIR em redes sociais. 

Facebook e Instagram olho de vez em quando só pra ver como é que tá a movimentação. E tá cada vez pior, então nada de voltar agora.

Daí, estava eu de boa fuçando nas internet e de repente me vem a ideia de olhar o Facebook, pra ver o que tá rolando. Fazia muitos dias que eu nem lembrava disso.


Aí, eu vi essa imagem.


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Primeiramente achei que fosse meme da atriz, talvez ela quisesse surfar no sucesso de Capitã Marvel pra fazer algum marketing positivo para a tal comédia que ela iria estrear.

(Apesar de que a montagem ficou, ó, uma bosta)

"De Pernas pro Ar 3", o nome da... obra. 

Não sei se obra artística ou obra de cachorro, não fui ver pra saber. Mas dizem as más línguas que foi a segunda opção. 

Não duvido, mas também não tenho opinião formada. Há, porém, quem diga que é uma ótima comédia, porém genérica.

Daí eu fui olhar o texto que acompanhava a imagem...

Mas era coisa séria. Ao menos... pretendia. 

Dizia: "Super-heroína do cinema nacional. Super-poder: manter filmes nas salas de cinema com filmes falados em nossa língua".

Ainda pareceu meio idiota. Mas depois fui ler as notícias a respeito disso.

"Vingadores: Ultimato ocupa 92% das salas e reacende polêmica sobre o cinema nacional";
"Cinema nacional se vê ameaçado por Vingadores";
"De Pernas pro Ar 3 perde salas para Vingadores";
"Ingrid Guimarães tem prejuízo gigantesco com estreia de Vingadores: Ultimato"

Eu adoro o cinema nacional, deixo isso bem evidente logo no começo.

Não sou um grande entusiasta, mas de vez em quando assisto aos filmes nacionais. as comédias e saio do cinema muito satisfeito, pois são divertidas, apesar de a maioria ser genéricas. 

Tivemos um grande respiro na comédia nos últimos anos, com os geniais dois filmes "Cine Holliúdy", do cearense Halder Gomes. Dois ótimos filmes.

Já vi "O Auto da Compadecida", os dois "Tropa de Elite", "Assalto ao Banco Central", "Cidade de Deus"... 

E aquele que, a meu ver, é o melhor filme brasileiro que já vi: "Batismo de Sangue".

Vi poucos, é bem verdade. E não vi a maioria daqueles que são de fato tidos como os melhores. 

Mas apesar disso, posso dizer que gosto da ideia de o cinema nacional ser incentivado pelo estado.

Não só gosto, mas sob outras circunstâncias, eu até acharia que, até certo ponto, a reivindicação de Ingrid Guimarães a favor do cinema brasileiro estaria 100% correta. 

Numa época em que a cultura no Brasil vive um estado de constante ameaça em seus alicerces, com um governo obscurantista que diariamente ataca a educação e a cultura, é necessário manter vozes ativas de oposição e combate a essas forças.

Sou contra acabar com a Lei Rouanet e os sistemáticos ataques aos artistas brasileiros que têm ocorrido nos últimos anos, por parte da extrema-direita que tem tomado conta deste país. 

Entre outras coisas nas quais não me alongarei aqui, pois não são o foco do texto.

Contudo... não me parece que o interesse REAL da atriz de "De Pernas pro Ar 3" seja o de defender a cultura e o cinema nacional.

Tanto ela quanto a Globo parecem mais interessadas em defender o sucesso comercial de seu filme, completamente arrasado pelo sucesso dos "Vingadores".

Não a vi se posicionando em apoio a Wagner Moura quando "Marighella", longa do ator-diretor, foi severamente atacado nas redes sociais, por exemplo.

Ao mesmo tempo, a Globo, através de um editorial, lança um texto lamentável falando sobre como o filme da atriz - que por acaso é sua contratada - é um baluarte do cinema brasileiro frente ao filme predador da Marvel, e que o longa dos Vingadores servia unicamente para mostrar como o CGI era foda e tudo o mais.

Pra piorar a situação, o editorial cita a opinião de Ivan Finotti, colunista da Folha de São Paulo, sobre "Vingadores", de que era "o filme mais chato de 2019" (por sinal, uma opinião totalmente isolada entre TODA a crítica especializada).

É... Fica difícil defender quando o texto segue uma linha de pensamento editorial que parece preferir se fechar numa bolha de pensamento, no qual todos estão errados e ele está certo.

E outra coisa... Por mais que eu não seja um cinéfilo, e muito menos um grande entusiasta do cinema nacional, como já disse, há uma coisa que me incomoda bastante nesta seara... 

Não há muita variação nos gêneros de filmes produzidos aqui.

Consultando a lista dos 100 melhores filmes nacionais, feita pela Abraccine (Associação brasileira de críticos de cinema)... Vemos um padrão.

Geralmente é drama, comédia e romance.

Dos 100, aproximadamente metade são de drama. 10 são comédias. Apenas 7 são documentários.

De vez em quando filmes de ação e policiais, como os "Tropa de Elite". Suspense, menos ainda.. Teve três filmes de terror, dirigidos pelo Zé do Caixão. Todos dos anos 60.

Recentemente, tivemos uma interessante tentativa de produzir um filme de super-herói brasileiro, com "O Doutrinador". 

O filme recebeu diversas críticas mistas, mas o aspecto mais elogiado foi a inovação ao tentar trazer o gênero para terras tupiniquins.

O fato é que talvez precisemos de pessoas dispostas a diversificar o tipo de produções feitas por aqui.

Precisamos de mais filmes como "O Doutrinador" e menos como "De Pernas pro Ar". 

Mais filmes autorais e inovadores, que erram tentando acertar em algo genuinamente novo.

Menos comédias genéricas.

Mas tem um aspecto que ainda não abordei nesse texto, e que é essencial para que a minha opinião seja de fato entendida.

Por mais que abracemos com força o idealismo sobre como o cinema nacional pode ser melhor se simplesmente abrirmos "cotas" para filmes nacionais nos cinemas, e eu até concorde com isso em alguns aspectos...

As regras de praticamente todo o mercado capitalista são predatórias. E o cinema não é exceção.

No cinema, contudo, você tem uma maneira de evitar complicações com a arrecadação financeira do seu produto: você pode escolher o timing de lançamento desse produto. 

E escolher o melhor momento para lançar um filme pode fazer toda a diferença sobre o sucesso que ele pode vir a ter ou não nas bilheterias.

A própria Disney viveu, 17 anos atrás, situação parecida (em escalas muito diferentes, claro) com a que vive Ingrid Guimarães hoje. 

Em novembro de 2002, a empresa do Mickey Mouse decidiu lançar "Planeta do Tesouro", até hoje tido como um dos melhores filmes de animação já feitos. Na mesma época, a Warner Bros lançava "Harry Potter e a Câmara Secreta", segundo capítulo da saga de J.K Rowling

Arrogante, a companhia do rato achou que seu lançamento, por levar o selo Disney, não teria problemas para bater o filme da rival, que havia sido um fenômeno de público no primeiro filme e prometia ser um novo grande sucesso.

Assim, esta se provou uma péssima decisão estratégica. O longa conquistou as salas de cinema pelo mundo e fez US$ 879 milhões mundialmente, contra apenas US$ 109 milhões de "Planeta do Tesouro". 

Hoje a Disney parece ter aprendido sua lição de casa. Timing para lançamento em cinema é TUDO.

Independentemente de qualquer opinião que você, eu ou qualquer outra pessoa possamos ter, o fato é que Vingadores: Ultimato é o maior evento da história do cinema. É o ato final de um universo cinematográfico que demorou 11 anos para chegar em seu ápice. 

Que reuniu todo um público cativo e apaixonado ao longo de todos esses anos. Pessoas que brigaram para assistir o filme nos primeiros dias, mesmo após a estreia. 

Nas salas lotadas, o público transformava o local em arquibancada de estádio e as emoções tomavam forma nas reações dos espectadores conforme o filme ia se desenrolando.

Sob QUALQUER circunstância, a disputa para outros filmes FATALMENTE se tornaria desleal. Com cotas ou sem cotas para qualquer filme, de qualquer nacionalidade. E isso deveria ser encarado naturalmente. 

Até Shazam, filme recente da DC Comics/Warner, sofreu os efeitos da concorrência com "Ultimato". Nenhuma surpresa.

Manter qualquer filme em evidência num cenário como esse, quando você tem que disputar contra todo um evento cinematográfico, seria tarefa ingrata. 

E todo mundo sabia disso. 

Os estabelecimentos de cinema, que não são bobos, muito menos. Após perceberem o tamanho do impacto financeiro que teria a arrecadação de "Vingadores", salas que seriam de "De Pernas pro Ar 3" e provavelmente até de "Shazam" e de outros filmes, foram realocadas para o filme da Marvel.

E isso aconteceu em TODO O MUNDO. Não apenas no Brasil.

Mas a "super-heroína" (tsc) Ingrid Guimarães discorda. 

Não sei se a atriz tem um senso meio distorcido acerca de sua própria relevância, ou só está com dor de cotovelo pelo sucesso do filme "rival" - muitas aspas para a palavra "rival", por motivos óbvios - ou as duas coisas.

Porque acha que seu filme, uma comédia nacional genérica, deveria conseguir disputar com o maior evento cinematográfico de todos os tempos. 

Em igualdade de condições.


sexta-feira, 3 de maio de 2019

Sobre a Capitã Marvel - Algumas ponderações

O autor deste blog, que ora vos escreve, já teve algumas épocas bem ruins no que se refere a questão "construção social". 
Este blog em si já teve vários posts machistas, que pouco ou nada contribuíam para a discussão acerca de questões relevantes para a desconstrução social das pessoas e, por conseguinte, do machismo construído pela sociedade que essas pessoas compõem.

Bem, hoje em dia, não sei se posso dizer que não sou machista, uma vez que há muitas coisas sobre nós mesmos que é melhor que sejam ditas pelos outros em vez de nós mesmos nos referenciarmos. 

E essa é uma delas.

Não apago porque... Acho que para ser algo melhor é preciso lembrar do pior que você já pôde ser.

Porém, uma vez que reconheço que muitas atitudes minhas no passado foram realmente machistas, talvez até possa dizer que mudei para melhor em alguns aspectos.

Na verdade, esse texto talvez pudesse ser mais assertivo se estivesse sendo escrito por uma mulher. 

Mas, na condição de único autor deste blog e também de pessoa que se reconhece capaz de opinar sobre algum assunto - ainda que talvez não seja a melhor opinião possível dentro do espectro - cá estou, escrevendo isso na esperança de que alguém leia. 

Considerações iniciais feitas, hora de mergulhar no raso.

Capitã Marvel.

Afinal, ela é legal ou não?

Bom... Vamos pensar um pouco.

Por um lado, pode-se dizer que sim, há uma certa forçação de barra ao tentar atribuir à personagem uma relevância que ela só começou a ter, de fato, nos anos recentes dos quadrinhos.

Vou falar um pouco mais "profundamente" daquilo que eu sei. 

Resultado de imagem para Marvel Super Heroes #13O fato é que ela foi criada ainda lá pelo final dos anos 60, sendo sua primeira aparição na imagem ao lado, na revista Marvel Super Heroes #13, que introduziu o Capitão Mar-Vell. Ela apareceu apenas como Carol Danvers, a nova chefe de segurança da NASA.

Nove anos após sua criação, em 1977, ela havia se tornado uma super-humana, metade humana e metade kree, após entrar em contato com tecnologia alienígena. Ali ela se tornou a Miss Marvel, uma espécie de assistente do Mar-Vell.

Sua estreia como a Miss Marvel foi na revista Ms. Marvel #1, com seu DNA misturado ao de Mar-Vell após a explosão com o Psico-Magnetron, uma máquina kree capaz de transformar imaginação em realidade.

Houve muitos burburinhos na época sobre este quadrinho; os dois principais seriam o de que a Ms. Marvel seria o equivalente da Marvel à Mulher-Maravilha - algo um tanto quanto infundado, dado o status "inovador" da heroína da DC Comics; e também de que o título seria "visivelmente" ligado ao movimento feminista. Em se tratando de anos 1970, onde os quadrinhos eram um passatempo ainda mais ligado ao universo masculino do que nos dias de hoje, essa última afirmação até tem algum fundamento. Mas com o passar dos anos a discussão feminista evoluiu bastante, a ponto de não considerar mais como "suficiente" uma heroína super sexualizada e que poderia não ser levada suficientemente a sério pelo público. Apenas olhem o traje dela na capa ao lado e tirem suas próprias conclusões.

Pouco tempo depois ela se juntou aos Vingadores. Em outubro de 1980, na fatídica edição comemorativa #200 do primeiro título "Avengers", criado lá em 1963, Carol teve uma gravidez indesejada e deu a luz a um ser que cresceu muito rápido. Sim, a Ms. Marvel foi sexualmente constrangida. Marcus Immortus, o ser que a estuprou, fez com que ela desse a luz a uma outra versão temporal de si mesmo, criando um loop temporal em que ela engravidaria dele de novo, de novo e de novo. Esse quadrinho é tido como uma das histórias mais controversas e não-intencionalmente ofensivas da história da super-equipe - quiçá de toda a história dos quadrinhos em geral.

Em 1982, temporariamente, assumiu a identidade "Binária" após perder seus poderes em uma luta contra a Vampira, integrante dos X-Men, que absorveu suas memórias e poderes. Mas depois, voltou a ser uma integrante recorrente dos Vingadores. Participou como coadjuvante em vários eventos, sobretudo na realidade paralela criada pela Feiticeira Escarlate (conhecida como Dinastia M) e na primeira Guerra Civil, tomando parte ao lado do Homem-de-Ferro contra o Capitão América.

Resultado de imagem para carol danvers first appearance as captain marvelNo evento Vingadores VS X-Men, a Força Fênix estava atravessando o universo em direção à terra, fato ocorrido em razão de o Império Kree ter ressuscitado o Capitão Mar-Vell utilizando o cristal M'Kraan, que havia sido reparado com o poder da Fênix após um conflito que envolveu o Império Shi'ar e os X-Men. Mar-Vell se sacrifica para salvar Hala, o planeta onde viviam os Kree, pois entendeu que a Força Fênix estava se dirigindo para Hala a fim de reclamar a porção de poder que havia sido utilizada para ressuscitá-lo.

Ao fim do conflito entre os X-Men e os Vingadores, em 2012, Carol Danvers decidiu assumir o legado de Mar-Vell, se tornando assim a Capitã Marvel.

Após esta breve recapitulação da história de Carol Danvers nos quadrinhos, é possível perceber que a relevância dela sempre oscilou entre baixa e razoável, com idas e vindas entre os Vingadores, os Starjammers e os X-Men. Seu grande destaque veio de fato quando assumiu o manto do Capitão Marvel definitivamente.

Daqui em diante, é preciso explicar o seguinte: A história pregressa de Carol Danvers, sua origem nos quadrinhos do século passado, foi parcialmente desconsiderada, a partir de um retcon feito em sua origem, no quadrinho "A Vida da Capitã Marvel", escrito por Margaret Stohl. O quadrinho basicamente foi uma grata tentativa de afastar Carol Danvers da origem conectada e dependente de Mar-Vell, um personagem masculino.

Segundo o roteiro de Stohl, a personagem na verdade sempre teve DNA kree e que sua mãe seria a Capitã Mari-Ell, uma kree que foi para a terra e se relacionou com Joseph Danvers, assumindo o nome de Marie Danvers. E a explosão envolvendo o Psico-Magnetron não teria alterado seu DNA, mas sim apenas desbloqueado sua natureza Kree em seu psicológico.

Há quem não goste desse tipo de retcon, por achar desrespeitoso com a história da personagem. Por um lado eu entendo quem não goste, pois apesar de controversa, a história de Carol Danvers fortalece o significado de sua transformação na Capitã Marvel. Por outro lado, entendo e gosto da mudança feita por Stohl, no sentido de que a relevância da personagem nos dias atuais, com uma forte - e necessária - presença do feminismo na discussão sobre a participação feminina na sociedade, talvez seja incompatível com uma origem tão dependente de um personagem masculino. De modo que considero o retcon muito bem-vindo, de fato.

O mundo está mudando. Precisamos mudar junto.

Com esse contexto, creio que já podemos falar sobre a adaptação fílmica da personagem, na qual Danvers é vivida por Brie Larson.

É bom que comecemos logo dizendo que o filme não é lá essas coisas. É um divertido filme de sessão da tarde e não está entre os melhores longas do Marvel Studios. Mas meu foco não será no filme, e sim tão somente na personagem em si e em Larson.

Pessoalmente, considero a personagem legal. Ela traz consigo um certo estereótipo geralmente associado com personagens masculinos, sobretudo aqueles homens que são tidos como o ideal de virilidade do século passado: agressividade, arrogância e um alto senso de vaidade. Exemplos não faltam; Clint Eastwood em seus filmes de faroeste, Charles Bronson na série Desejo de Matar, Arnold Schwarzenegger, Chuck Norris e Sylvester Stallone em qualquer filme que fizessem nos anos 80...

PS: Menção honrosa para Linda Hamilton, que já havia feito uma personagem com esse estereótipo em "O Exterminador do Futuro 2 - O dia do Julgamento Final", Sarah Connor.

Ainda assim, esse estereótipo é muito mais comum - e por isso socialmente aceito - em homens, de modo que a Carol Danvers de Brie Larson incomoda não apenas pela falta de carisma, algo notório tanto na personagem quanto na atriz, mas também por buscar afirmação de autossuficiência. Afinal , por mais que a presença feminina na figura das heroínas não seja algo novo no cinema - e muito menos no Universo Cinematográfico da Marvel, tido como "feminista" por alguns - o conceito de filmes protagonizados por super-heroínas é algo relativamente novo.

E falo "relativamente" porque a primeira mulher a causar esse tipo de incômodo na história recente da cultura geek foi Rey, em "Star Wars Episódio VII: O Despertar da Força". Mas ainda que Rey fosse a protagonista, este era um filme de Star Wars, e não um filme da Rey. Dois anos depois, foi lançado o filme da Mulher-Maravilha, pertencente ao Universo Cinematográfico DC nos cinemas, este sim um filme-solo feminino. O filme de Diana Prince foi simplesmente um sucesso de bilheteria, arrebatando mais de 800 milhões de dólares.

A Capitã Marvel, assim como a heroína da editora rival, assumiu um filme-solo próprio, onde a história seria principalmente sobre ela. Se já existia um público tóxico que se inflamava devido a representatividade pontual de minorias nesse nicho, os dois filmes das heroínas - juntamente com Pantera Negra (2018) - puseram fogo nessa discussão.

Mas se o filme da Mulher-Maravilha (2017) - embora seja ótimo - parece mais tímido nesse papel, ainda mais pelo interesse romântico masculino de Diana fora da Ilha de Themyscira, pelo discurso um tanto "brega" relacionado ao amor e por ser um tanto tímido na discussão de questões sociais concernentes às mulheres na temporalidade em que se insere, Capitã Marvel (2019) é muito mais carregado de contestação à ocupação de espaços tidos como masculinos.


Imagem relacionada
Além disso, você consegue enxergar na Carol Danvers de Larson uma passionalidade em suas atitudes pela qual muitas vezes é criticada a psique feminina. E a forma como o filme trabalha esta característica é muito significativa, pois a coloca numa posição de empoderamento que geralmente a sociedade vigente parece querer coibir na mulher. Afinal, por que a presença da passionalidade deve sempre significar fraqueza, falta de julgamento ou incapacidade de agir da melhor maneira possível?


O fato é que a Capitã Marvel se situa entre dois "extremos". Por um lado ela é branca e loira e, esteticamente, não representa a maioria das mulheres. Nesse sentido, a representatividade pode até não ser a melhor possível. Longe disso, na verdade. Mas a Carol Danvers apresenta uma psique mais comum do que alguns gostariam de admitir.

Ela traz muito consigo a onda das mulheres atuais, que se preocupam mais com suas próprias jornadas pessoais do que em agradar e aquiescer às convenções sobre o que é ser mulher ou feminina. E por isso ela pode não ser o modelo mais interessante, como a Mulher-Maravilha e seu discurso brega sobre o amor. E também não é fofa e nem a candidata a miss simpatia dos sonhos. Ela é o que quer ser. E tudo bem com isso.

Brie Larson também tem muito disso em si. Nas entrevistas ela sempre busca essa afirmação de suficiência em relação ao lugar que busca ocupar. Assumiu muito do discurso feminista de suficiência feminina, principalmente no que se refere ao fato de as mulheres se bastarem. Em suas frases mais polêmicas, disse que este era um filme para mulheres e que a opinião de homens não interessa. Se formos analisar o sentido mais otimista da frase, que é o fato de que este filme foca mais em como as mulheres podem ser representadas, a atriz está certa: este é um filme que foca mais na desconstrução da imagem ruim da passionalidade feminina e também do estereótipo da mulher simpática, ao mesmo tempo em que consegue ser uma aventura legal e divertida.

Com relação à ideia de que "não  precisamos da opinião dos homens"... bem, é tipo você dar sua opinião e alguém dizer "ninguém perguntou".

Foda-se irmão.

Você fala se quiser e pronto. A outra pessoa escuta se quiser e pronto.

Se afetar com uma frase dessas é coisa de quem ficou com o eguinho ferido.

A atriz pode não ser a mais carismática do mundo, isso é algo a se trabalhar... mas ela está certa no sentido de que o filme não foi feito pro nerd punheteiro que reclama que a personagem não tem bunda e coisas do tipo.

Em suma... Acho a personagem legal. Tem suas qualidades, é sisuda e tem auto-confiança. E é poderosa pra CARALHO. Tomara que resolvam o que tiver a ser resolvido.

E você que não gosta dela por algum motivo, é um direito seu. Mas vá se acostumando, porque os produtores vão considerar menos o seu chororô e mais o US$ 1,1 bilhão que o filme fez.

E a presença feminina no MCU deverá ser cada vez maior.

Ainda bem.

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Sobre uma despedida - Vingadores: Ultimato (COM SPOILERS)

Sei lá quanto tempo já faz do último tempo que eu fiz pra essa joça aqui. Deve fazer tipo uns dois anos. Lembro que era algo sobre Fórmula 1.

Não importa. O texto hoje é sobre algo que realmente me deixou impactado e emocionado, coisa que a Fórmula 1 já não faz há tempos.

Vingadores: Ultimato é o último capítulo da Saga do Infinito, o nome dado por Kevin Feige, presidente do Marvel Studios, às três fases de filmes do Universo Cinematográfico Marvel.

Bem... Mas o que falar sobre este filme que não tenha sido falado em diversos outros sites de crítica ou vlogs por aí? 

Difícil dizer.

AVISO LOGO QUE O TEXTO TERÁ SPOILERS, ENTÃO DAQUI EM DIANTE LEIA POR SUA CONTA E RISCO

O longa é maravilhoso, não há dúvidas. Para todas e todos que de fato se dedicaram por muitos anos a estes filmes, "Ultimato" é um presente. Quase de fã para fã. Os irmãos Russo, diretores, capricharam em cada cena de modo a fazer com que todo o investimento emocional fosse recompensado.

Porém, há muitas variáveis que modificam a forma como cada pessoa percebe o filme.

As pessoas que, como eu, viram tudo da Marvel Studios e têm em mente pelo menos a grande maioria dos filmes, terão uma farta recompensa emocional.

Mas quem não tiver tanto apego assim... Sentirá o primeiro e segundo atos um pouco chatos.

Aqui abro um parêntese, porque ouvi a seguinte pérola em um desses vlogs sobre o filme: 
"Vingadores: Ultimato é tipo Batman vs Superman, só que sem carisma".  É... Gosto não se discute, mas se lamenta. ¯\_(ツ)_/¯

Isso porque a película não tem a menor pressa de desenvolver os personagens durante esses atos.

Afinal, este filme é uma continuação de um outro filme no qual, literalmente, os Vingadores foram derrotados. E esta narrativa, até então, não era nada comum para a equipe. Excetuando-se, talvez, Guerra Civil, no qual Zemo tecnicamente venceu, pois dividiu os heróis e os fez colidirem entre si.

Mas se Guerra Infinita trouxe um roteiro parcimonioso, que objetivava desenvolver a psique de Thanos (falarei mais dele adiante), Ultimato desenvolve, com mais paciência ainda, o luto de cada um dos heróis sobreviventes e como eles lidam com a perda, algo novo para a maioria deles.

Aliás, um resquício de Guerra Infinita que adorei neste filme é justamente o começo. Nos primeiros vinte a trinta minutos eles simplesmente vão atrás de Thanos (agora, com a ajuda da Capitã Marvel) e o matam facilmente - Thor decapita o Titã louco, em alusão ao trabalho não-concluído do filme anterior. Essa "vitória", porém, não traz a menor compensação para os Vingadores, pois Thanos havia destruído as joias do infinito. Sem ter como desfazer o que foi feito, cada um dos heróis toma seu rumo, a seu jeito próprio.

Por isso, o primeiro ato mostra cada um dos heróis (principalmente os seis vingadores originais) e como eles seguiram em frente. Cada um com uma cena interessante e/ou divertida. Destaque para o Ronin e também para o Thor gordão jogando Fortnite, na cena mais hilária do UCM.

Quando o Homem-Formiga volta (com uma cena totalmente casual, diga-se de passagem), o filme ganha alguma agilidade e passa a tratar menos da melancolia dos personagens e mais da forma como eles vão tentar resolver isso: pegando as joias do infinito para trazer todos os empoeirados de volta. 

Mas como, se as joias foram destruídas?

O que todos teorizamos: viagem no tempo, claro. E o Homem-Formiga é essencial nisso, pois traz as famosas partículas Pym, necessárias para entrar no Reino Quântico.

O segundo ato então trata de nos fornecer, através da viagem do tempo, uma verdadeira retrospectiva pelos 11 anos do Universo Marvel nos cinemas. Junto com os vingadores - divididos em equipes de resgate para pegar as joias do infinito através do tempo, revisitamos cenas clássicas pela perspectiva deles, o que é divertidíssimo.

Além disso, há uma chuva das mais variadas referências e easter eggs, o que torna tudo mais legal. Temos também o cameo mais legal de Stan Lee, bem como o reencontro entre Tony Stark e seu pai.

Neste segundo ato, em especial, ocorre um dos eventos mais traumáticos. Barton e Natasha foram para Vormir. Porém, em decorrência do sacrifício necessário para a obtenção da joia da alma, os dois lutam, pois ambos querem se sacrificar. Sim... Vemos a surpreendente morte da Viúva Negra.

Se o segundo ato é um pouco mais ágil do que o primeiro, o terceiro ato é simplesmente o mais épico da história da Marvel Studios - quiçá de toda a história do cinema. Os heróis voltam ao presente e conseguem reverter as ações de Thanos. Porém, o vilão utiliza a viagem dos Vingadores ao passado para ir ao futuro ele mesmo para coletar as joias do infinito adquiridas pelos heróis.

Falando em Thanos...

Guerra Infinita desenvolvia a mente do vilão a um ponto que o fazia ser até compreensível e concordável de alguma maneira ao querer cumprir o objetivo que apenas uma mente insana e psicopática poderia traçar. O gigante roxo não era tido como o Titã Louco à toa, afinal de contas. Apesar de eu, pessoalmente, nunca ter comprado o discurso do personagem e o achar literalmente um vilão, sem ter qualquer tipo de empatia pelos seus objetivos ou coisa parecida, eu entendia o motivo pelo qual as pessoas de alguma forma simpatizavam com ele.

Mas em Ultimato, ao se ver confrontado pela resistência da Terra - e de seus vingadores - Thanos perde a paciência e mostra seu lado tirânico. Acima de qualquer "preocupação" com a sobrevivência dos povos, Thanos mostra o egocentrismo de um sujeito que sabe ser muito poderoso, mas parece não lidar muito bem com aqueles que tentam resistir à sua vontade.

Agora, ele deseja apagar todo o universo para criar um novo no lugar, pois entendeu que enquanto restar uma metade que não se conforma com o que perdeu, não haverá como seguirem em frente. Se antes eu não comprava seu discurso como algo "válido", agora o acho realmente vilanesco e despótico. E fechou o discurso trazendo a Ordem Negra e tornando o confronto para destruir a Terra em algo pessoal.

Daí em diante, começa a maior batalha de todo o Universo Marvel. Cada um dos personagens tem uma cena edificante. E temos provavelmente os maiores fanservices da história cinema de super-heróis.

"À sua esquerda, cap."

Vários portais se abrem.

Todos voltam. os Guardiões da Galáxia, o Homem-Aranha, Doutor Estranho, Pantera Negra e Wakanda, Valquíria e os asgardianos, Wong e os magos do Sanctum Sanctorum...

Uma única missão: destruir Thanos definitivamente.

Todos atrás do Capitão América, prontos para avançar ao seu comando.

VINGADORES!...

... Avante.

A maior cena da história do cinema de super-heróis dá início ao conflito pelo destino do Universo.

Todos têm uma cena legal. Capitão América segura o Mjolnir. Nebulosa (IMPORTANTÍSSIMA neste filme) mata sua contra-parte do passado. Homem-Aranha se reencontra com Homem-de-Ferro, que o abraça. Homem-Formiga destrói um Chitauri gigante.

Quando o conflito está prestes a chegar ao clímax, chega a Capitã Marvel na guerra e simplesmente DESTRÓI a nave de Thanos. A luta então passa a ser pra ver quem pega as joias do infinito, e aqui vemos a cena de maior representatividade feminina, com Carol Danvers recebendo ajuda de todas as mulheres da saga - incluindo a Valquíria e Pepper, agora como Resgate.

Thanos pegou a manopla e estava prestes a dar o estalo, mas é impedido pela Capitã Marvel, o que ocasiona um embate muito foda. A heroína quase subjugou o vilão, que só não perdeu definitivamente porque já estava com as joias. Novamente prestes a dar o estalo, Thanos deu a entender que estava tudo perdido para os heróis. Stark tenta impedi-lo, mas é nocauteado.

O estalo parece inevitável.

"Eu sou inevitável", diz Thanos.

Snap.

Mas... nada acontece feijoada.

Tony Stark, com sua própria manopla, havia roubado as joias do infinito.

Thanos fita Stark, incrédulo com o que acabara de acontecer. E escuta o herói dizer:

"Eu... sou... o Homem-de-Ferro."

Snap.

Thanos observa, resignado, toda a Ordem Negra desaparecer. E se senta para aguardar seu destino, este sim inevitável.

Simplesmente um desfecho incrível para uma guerra incrível.

Stark não resiste ao poder das joias e acaba falecendo, numa rara cena realmente muito triste no UCM. A morte do Homem-de-Ferro foi uma das coisas mais significativas deste universo, não há dúvidas, pois fecha brilhantemente o arco do personagem.

Seguiu-se a essa cena o momento inesquecível do enterro do herói, uma das cenas mais emocionantes do filme. Todos ao meu lado no cinema choraram quase copiosamente. Todos os heróis, mostrados parcimoniosamente pela fotografia, aparecem para prestar seus sentimentos. Até mesmo Harley Keener, garoto de Iron Man 3, está presente.

E o Capitão América, que tanto serviu como herói ao longo de todos esses anos como, sem poder viver sua própria vida, finalmente teve a chance de viver como Steve Rogers. E agarrou essa chance com força.

O final é brega.

Mas é perfeito.

E termina com maestria todo o caminho da Saga do Infinito ao longo desses 11 anos.

Afinal, parte da jornada é o fim.

Universo Marvel, eu te amo mil milhões.

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