sábado, 28 de março de 2026

A INFANTILIZAÇÃO DO FANDOM DE HARRY POTTER

 Tenho visto um argumento muito comum entre os que se preocupam com a inserção do marcador racial no personagem Severo Snape na narrativa de Harry Potter a partir da escalação de Paapa Essiedu para viver o personagem na série: o de que personagens que fizeram bullying com ele, no caso os marotos, se tornarão racistas, ao menos na juventude, e que haverá uma tensão racial permanente nas dinâmicas que envolverão o personagem Snape em Hogwarts. Tentarei discorrer.

À primeira vista, isso pode parecer uma preocupação com coerência narrativa. Mas, ao olhar com mais cuidado, o que me parece é que esse argumento revela algo mais profundo: uma dificuldade real de parte do fandom de Harry Potter em lidar com complexidade narrativa e tensões sociais explícitas. O argumento que mais aparece nesse sentido seria de que no mundo bruxo não haveria preconceitos de ordem étnica entre humanos na composição das relações sociais e de produção. Isto é bem ingênuo, a meu ver.

Para sustentar este argumento, o fandom vai apontar que a aparição do preconceito na narrativa de J.K. Rowling se baseia essencialmente na dominação imposta pelos bruxos (essencialmente humanoides) sobre criaturas de outras raças. Bom, isto é considerado canônico, já que os livros nunca tocaram em tensões raciais interhumanas, ou ao menos não de formas explícitas. Isto é uma escolha narrativa da autora. 
 
Ocorre que o silêncio também é uma forma de falar. Ao sugerir que o mundo bruxo não tem tensões de origem racial entre humanos, a autora não se torna imune a leituras críticas. Pelo contrário: esse silêncio pode ser lido como um apagamento, um recorte ou mesmo uma limitação da própria construção de mundo. Toda narrativa escolhe o que iluminar e o que deixar à sombra. essas escolhas dizem tanto quanto aquilo que é explicitamente desenvolvido. 

No caso de Harry Potter, as tensões sociais são deslocadas para outros eixos, especialmente na relação entre bruxos e trouxas, ou entre humanos e outras criaturas, como já explicitamos. Tomar esse silêncio como prova de inexistência de tensões étnicas interhumanas é, portanto, uma leitura ingênua ou, no mínimo, pouco crítica, tanto da autora quanto de quem a lê.

E demograficamente falando, não está equivocado. Pessoas negras, mesmo hoje, correspondem a menos de 4% da população do Reino Unido. Só que Harry Potter não é um estudo demográfico e sim uma obra de fantasia infantojuvenil. Escolher não explicitar tensões raciais nestas condições não faz com que, nas entrelinhas, não possamos enxergar conflitos tácitos. As famílias mais ricas e poderosas dos Sagrados Vinte e Oito, por exemplo, são brancas, tais como a família Black, Malfoy etc.

O que eu quero dizer é que a ideia de que não poderia haver tensões raciais em Harry Potter é sintoma de um sistema fechado, rígido, que não admite discussões para além daquilo que está perfeitamente explícito na obra ou, quando muito, deve-se buscar apenas aquilo que é passível de ser canonicamente verdadeiro (sendo a palavra de J.K Rowling, por sinal, absoluta como crivo sobre o que é verdade ou não dentro desse sistema).

E é justamente essa leitura que sustenta a reação exagerada a um possível deslocamento interpretativo do personagem Severo Snape a partir da mudança de etnia do personagem. Ao invés de encarar a mudança como uma abertura de novas camadas de leitura, parte do fandom responde como se estivesse diante de uma quebra de regras rígidas e imutáveis. Como se a obra só pudesse existir dentro dos limites exatos do que foi explicitamente mostrado e qualquer ampliação fosse, por definição, uma distorção.

Ocorre que não é assim que funciona na crítica literária. Obras de ficção estão perfeitamente abertas a leituras interpretativas, críticas construtivas e análises de texto para além do que é explicitado. Não cabe ao fã tentar interditar a crítica através do apelo a uma verdade monolítica construída com base em olhares literalistas sobre a natureza do texto. Essa postura do fandom não revela zelo pela narrativa, mas uma dificuldade em lidar com suas lacunas, ambiguidades e possibilidades.

A adoção deste sistema rígido que mencionei dois parágrafos atrás é sintoma, a meu ver, da infantilização mencionada no título desse texto. Tal infantilização produz a recusa em aceitar interpretações diversas das que a verdade canônica que ele tenta impor, porque no fim, se pretende manter absolutamente tudo como está para não ferir os frágeis sentimentos de nostalgia do fandom. Fidelidade pressupõe previsibilidade e conforto. O fã quer conforto, não tensão. E isso é sintoma da infantilização.

Nesse sentido, surge também um argumento aparentemente conciliador: o de que seria mais adequado explorar tensões raciais a partir de personagens negros já existentes na narrativa, como Dino Thomas, ou mesmo reimaginar personagens como Hermione Granger, em vez de deslocar etnicamente figuras centrais e controversas como Severo Snape. Até parece uma ideia razoável. No entanto, ela carrega uma limitação importante: a ideia de que certos temas devem estar restritos a determinados personagens.

Esse tipo de raciocínio subdivide a narrativa, como se personagens negros já existentes fossem os únicos capazes de sustentar discussões raciais, enquanto os demais devem ser preservados em uma espécie de neutralidade fictícia. Isso é delicado porque a ideia de que a tensão racial deve se restringir a personagens já racializados tende a naturalizar uma divisão implícita: a de que esses personagens existem apenas como veículos para esses temas.

Ao que me parece, isso reforça a noção de que personagens brancos devem permanecer inalterados e sem tensões raciais, enquanto personagens negros devem existir sempre em função de sua racialização. Trata-se de uma lógica que não apenas empobrece a narrativa, como também reproduz, ainda que de forma indireta, uma hierarquia simbólica bastante conhecida. No fim, parece não se tratar de proteger a coerência da obra, mas de preservar quem pode e quem não pode ser racialmente complexo dentro dela.

Dito isso, concluo que um fandom infantilizado como o de Harry Potter não percebe um Snape negro como uma gigantesca oportunidade narrativa de densificar e expandir discussões contemporâneas e absolutamente necessárias sobre a tensão racial no Reino Unido. Para o fandom, esta mudança será percebida inicialmente como "quebra de fidelidade", mas no fundo, também revela uma intolerância estrutural a quebra de expectativa, perda de poder simbólico e desafio estrutural proposto pela arte em questão.

Para ser sincero, isto me parece quase irônico, vindo de um fandom que procura proteger o gosto por Harry Potter com alegações de que seria uma saga com temas sociais de perseguição a minorias e que buscaria valorizar os laços humanos para além das tensões étnicas e raciais. Mas, quando essas mesmas tensões da vida real entram em conflito com parâmetros já estabelecidos na narrativa, a resposta usual é rejeição imediata, fechamento interpretativo e defesa rígida de uma suposta “fidelidade”.

No limite, valores que são celebrados em abstrato, tais como empatia, diversidade e enfrentamento de injustiças, tornam-se quase notas de rodapé quando se propõe reinterpretações concretas na obra e em alguns personagens. Em última instância, este fato expõe a natureza infantilizada e reacionária do fandom.

E talvez seja justamente isso que torna essa mudança étnica no personagem Severo Snape tão incômoda e, ao mesmo tempo, tão necessária

domingo, 22 de março de 2026

Resenha - FASHION BEAST - A Fera da Moda (Alan Moore & Malcolm McLaren)



Entendo patavinas de moda. Pra mim existe bonito, marromenos e feio. Tenho alguma sensibilidade para estética em vista do meu prévio trabalho como fotógrafo, mas as nuances mais complexas da moda nunca me foram muito familiares. Dito isso, foi com parcial ceticismo que adentrei a leitura de "Fashion Beast". Parcial, digo, porque, se pela parte da moda o quadrinho me nutriu alguma curiosidade mórbida, foi a autoria do roteiro que me chamou a atenção.

Afinal, Alan é Moore e dispensa apresentações: o lendário roteirista, tido como "o mago das histórias", sempre entregou narrativas, a seu modo, curiosas e chamativas, aliando enredos densos e cheios de crítica social a visuais atrativos e provocantes pela colaboração entre seus roteiros e a arte dos seus colaboradores. Suas maiores obras foram assim. De Piada Mortal a Watchmen, o roteirista quase sempre traz leituras dignas da atenção do público.

Em Fashion Beast, Alan Moore, em colaboração com Malcolm McLaren (ex-empresário da banda Sex Pistols e outras), traz uma leitura que não demora para chamar a atenção. Na trama, acompanhamos Doll Seguin, uma mulher que vivia em uma sarjeta qualquer e trabalhava em uma boate gay, tem a chance da vida ao ser selecionada pra trabalhar como modelo no salão de alta costura de Jean-Claude Celestine, um estilista que vive recluso em seu quarto. O salão de Celestine fica no centro da cidade e praticamente move a economia local, situada em um mundo distópico de Apocalipse Nuclear.

Aqui, Moore já faz uma provocação: um salão de alta costura funcionando em meio a um apocalipse nuclear?

A veia provocativa se estende por toda a trama. Moore e McLaren trazem temas de confronto social explícito, como a luta de classes no capitalismo tardio, o consumismo em tempos de guerra, distinções arbitrárias sobre gênero (sobretudo na figura dos dois protagonistas), as opressões sobre a liberdade sexual e a ditadura da estética, todos tendo a moda como ferramenta analítica principal ou tangencial. Moore não tinha interesse prévio particular na indústria da moda, como admitiu no prefácio da revista, mas demonstra ter um profundo entendimento conceitual sobre a moda e suas implicações no capitalismo. A mim, que não sou Alan Moore, resta apenas contemplar a capacidade do autor de produzir tão crível experiência de leitura sobre o tema em questão mesmo com a admitida limitação.

A narrativa é linear, o que torna a experiência de ler este título, mesmo peculiar, extremamente ágil e agradável: Moore aposta em uma história que flui muito gostosamente entre uma página e outra. Mesmo assim, preciso deixar claro que há alguns momentos mais contemplativos e outros ainda expositivos, nos quais é muito importante o leitor se deter um pouco mais para absorver o que está visualizando/lendo, pois há detalhes importantes para se absorver, mesmo no que parece banal ou secundário em cada página. Quando se trata de Alan Moore, a atenção ao ler nunca é demais.

A arte de Facundo Percio colabora neste ritmo e é simplesmente espetacular. Ele consegue transpor a densidade típica do autor para os visuais, que são nada menos que estonteantes. O ilustrador faz bastante uso de contraste, seja entre claro e escuro, seja entre cores fortes das pessoas e suas roupas e os cenários em sua maioria meio insípidos daquele lugar que, em grande parte, era desolado. O traço aposta muito mais em um visual mais simbólico, próximo do que seriam croquis, do que em realismo visual (e a meu ver acerta muito nisso). Há muito dinamismo visual, cada quadro encadeia o próximo com muita fluidez, o que ajuda muito na agilidade da leitura.

No fim, Fashion Beast teria muito a dizer sobre os anos 80/90. Teve muito a dizer sobre a época em que foi lançada (2012) e definitivamente tem mais ainda o que dizer sobre 2026. Afinal, o mundo segue em guerra, há risco de conflito nuclear cada vez mais pronunciado, a pior notícia sobre o capitalismo tardio é sempre a próxima, a perseguição aos LGBTs cada vez mais forte, mas seguimos a discutir sobre Neymar ir ou não à copa ou sobre o romance entre Lewis Hamilton e Kim Kardashian...

Talvez a Fera da Moda de fato esteja entre nós, agora mais do que nunca.


quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Harry Potter e a Pedagogia da Humilhação

Desde muito novo, eu sou fã de Harry Potter. Pode-se dizer que as obras da autora J.K Rowling me encantaram por décadas, com sua história cativante, protagonistas carismáticos, suspenses tensos e drama envolvente e o principal, um Universo Mágico extremamente envolvente, porém em grande medida simples e direto ao ponto. Uma saga que desafiou gigantes como Star Wars, Star Trek e até, em alguma medida, Senhor dos Anéis em popularidade, e que foi, por muito tempo, uma unanimidade em matéria de fantasia para crianças e adolescentes. Esse público, por sinal, cresceu com Harry Potter, numa época em que a coisa era mais ou menos Deus no céu e J.K. Rowling na terra, com a autora vivendo o ápice da popularidade, sendo tida como uma "fada sensata" pela maior parte da sociedade. A franquia era uma máquina de imprimir dinheiro infinito, então parecia tudo muito bom para todo mundo, ainda mais com "Animais Fantásticos" saindo e tendo alguma aderência do público.

Mas... algumas coisas mudaram nos últimos 5 ou 6 anos. A autora não é mais uma unanimidade em face de seus posicionamentos transfóbicos, "Animais Fantásticos" recebeu backlashing tremendo em face à bagunça nos bastidores com a troca do ator do vilão, e "Harry Potter", hoje, sofre muitas críticas retroativas hoje em dia por aspectos que, ao que parece, eram relevados ou pouco notados, mas que ganharam força em face à derrocada da figura pública da autora. Eu não vou entrar muito em detalhes porque isso seria tema para outro texto.

Cá estou com meus 32 anos, e talvez - TALVEZ - eu tenha como contribuir com mais um aspecto no qual eu acredito que Harry Potter tenha falhado flagrantemente em sua saga.

Já repararam como essa escola sofre profundamente de uma péssima administração pedagógica, qualquer que seja o diretor? 

Porque, sejamos sinceros: Hogwarts é uma das piores escolas já retratadas na ficção moderna. E não digo isso por implicância, mas mais por observação, análise pedagógica e dialógica. Quase todos os professores, de uma forma ou de outra, praticam humilhações públicas, aplicam punições arbitrárias e não têm qualquer preparo emocional ou pedagógico para lidar com crianças e adolescentes. E o mais curioso: a narrativa nunca contesta isso. O autoritarismo e a humilhação são tratados como traços excêntricos e até carismáticos de Hogwarts. "Parte do charme".

É como se a própria saga dissesse “aqui é assim mesmo, aceite”. Por sinal, há uma linha de "Pedra Filosofal" onde Malfoy, ao contestar a detenção sofrida por estar fora da cama após denunciar a turma de Harry por cometer a mesma infração, recebe de Hagrid a resposta de que "Hogwarts é assim". A detenção: acompanhar Hagrid em uma missão na Floresta Proibida, que Dumbledore disse, na primeira noite do ano letivo, ser proibida a todos os estudantes. Paciência.

Se existe um nome que simboliza o que há de mais problemático na dinâmica pedagógica de Hogwarts, esse nome é Severo Snape. A saga o pinta como um personagem complexo — e ele é, sem dúvida. Um homem ferido, cheio de contradições, preso ao passado e guiado por ressentimentos. Mas uma coisa não pode ser romantizada: Snape é um péssimo professor. Não é apenas uma questão de “rigor” ou “exigência”. É uma questão de abuso de autoridade. Ele humilha publicamente alunos, faz comentários pessoais e cruéis, pune desproporcionalmente e, o mais grave, alimenta um ambiente de medo e constrangimento como método pedagógico. Sua forma de ensino se baseia em rebaixar quem erra ou de quem simplesmente não gosta.

Neville Longbottom é talvez a maior vítima dessa postura: um aluno inseguro, claramente com sintomas de ansiedade e medo crônico, tratado por Snape como se fosse um estorvo. Há uma cena que diz muito sobre isso: quando o Bicho-Papão de Neville assume a forma do próprio Snape. Pense bem, o professor é literalmente o maior medo de um aluno de 13 anos. Isso, em qualquer escola do mundo real, seria motivo de intervenção imediata. Em Hogwarts, no entanto, é tratado quase como uma piada.

E não para por aí. Snape ridiculariza Hermione por seu esforço e inteligência (“Nossa insuportável sabe-tudo”), humilha Harry sempre que pode por motivos pessoais ligados ao pai dele, e protege os sonserinos mesmo quando eles agem de forma claramente antiética. O caso de Draco é emblemático. Tudo isso seria apenas antipático, se não fosse o fato de que a narrativa, por anos, nunca o responsabiliza de maneira contundente - quando muito, Snape é tratado como excentricamente cruel, a meu ver. 

O grande truque da série é transformar o sofrimento que Snape causa em uma espécie de “preço da complexidade moral”. Como se a dor que ele inflige fosse compensada por sua lealdade final ou por seu amor trágico por Lílian Potter. Mas não é assim que educação funciona. O arrependimento de um adulto não apaga o trauma de uma criança. E nada justifica o uso sistemático da humilhação como ferramenta de ensino. Quando deveria ser o adulto na sala, o professor age com muitos traços da criança humilhada e negligenciada que foi em seus anos de escola, repetindo o ciclo.

O mais assustador é que o texto nunca oferece um contraponto institucional. Dumbledore, que deveria ser o responsável por supervisionar seus professores, nunca intervém. Nenhum colega o confronta.
Nenhum aluno tem a quem recorrer. É como se o abuso fosse naturalizado, diluído na aura de “mistério” e “respeito” que envolve Snape. O problema, no entanto, vai além de Snape e sua coleção de abusos verbais. A questão é estrutural. Hogwarts é uma instituição que confunde autoridade com autoritarismo, e disciplina com humilhação. Não há um único indício, ao longo de sete livros e oito filmes, de que exista um conselho pedagógico, um psicólogo, ou sequer um protocolo para lidar com traumas e bullying, algo irônico em uma escola que abrigou ou até abriga alunos órfãos de guerra, perseguidos por seus próprios familiares e constantemente expostos ao perigo.

E o mais impressionante é que isso nunca é tematizado, nunca é objeto de crítica interna. Nem Dumbledore, nem McGonagall, nem ninguém jamais questiona o método de outro professor. Snape pode humilhar Neville até ele desabar de medo, Trelawney pode traumatizar alunos com previsões de morte, e o zelador Filch pode desejar tortura física para alunos ao lado dos mesmos e tudo é tratado com naturalidade, como “parte do charme” de Hogwarts.

E se Snape é o rosto mais visível do problema, Neville Longbottom é o corpo que carrega suas consequências. Poucos personagens representam tão bem o fracasso pedagógico de Hogwarts quanto ele.
Desde o primeiro livro, Neville é ridicularizado, seja pelos professores, pelos colegas ou, pior, pela própria estrutura da escola, que não oferece nenhuma forma de amparo. O menino é desastrado, inseguro e sofre com a memória dos traumas familiares. É o tipo de aluno que, no mundo real, despertaria preocupação genuína de qualquer educador. Mas em Hogwarts, ele vira alvo cativo de humilhações e piadas. Snape o aterroriza a ponto de o garoto tremer durante as aulas. McGonagall, ainda que muito mais justa e respeitável, também o expõe ao ridículo em certos momentos, tratando suas falhas como falta de esforço, e não como sinais de medo ou ansiedade. Nem Hagrid, que deveria ser a figura mais empática, demonstra perceber o quanto Neville é constantemente marginalizado E o mais doloroso é que nem os amigos de sua própria casa o poupam. Rony e até Harry, em vários momentos, zombam de suas trapalhadas ou o tratam como um peso morto, algo que a narrativa apresenta de forma leve, como “alívio cômico”. Só que não há nada de cômico em ver uma criança ser diminuída repetidamente até acreditar que não tem valor. 

Um dos exemplos mais gritantes da negligência ocorre em "Harry Potter e a Câmara Secreta", quando Neville é atingido pelo grito de uma mandrágora durante a aula de Herbologia e desmaia. O filme deixa claro que essas mandrágoras, embora ainda jovens, possuem gritos capazes de deixar qualquer aluno inconsciente por horas, um perigo real, mesmo que não letal. No entanto, a reação da professora Sprout é notavelmente displicente: “tudo bem, deixem ele aí”. Ninguém leva Neville à ala hospitalar, ninguém avalia seu estado, ninguém toma qualquer medida de segurança mínima. Ele é simplesmente abandonado no chão, enquanto a aula continua.

Esse episódio é sintomático de uma cultura escolar que normaliza o sofrimento e a exposição ao risco como parte da experiência educativa. Não se trata de um erro isolado de um professor distraído, mas de um padrão que percorre toda a escola: a vida e a segurança dos alunos são secundárias à continuidade das aulas e à manutenção da autoridade docente. Neville, o estudante mais vulnerável, é repetidamente colocado em situações de perigo e humilhação, às vezes pela crueldade explícita de Snape, outras vezes pela indiferença ou negligência de McGonagall, Sprout e professores que deveriam protegê-lo. Essa cena evidencia que Hogwarts não é apenas um ambiente difícil ou desafiador, mas um espaço institucionalmente cego às necessidades de seus alunos mais frágeis, reforçando a leitura de que a série naturaliza práticas pedagógicas abusivas.

O caso de Neville é um retrato cristalino do que Bourdieu chamaria de violência simbólica, aquela que se exerce de forma tão naturalizada que nem parece violência - imposta através de ideias e significados. Em Hogwarts, ela está em todo lugar: nas piadas, nas comparações, nas notas, na ausência de acolhimento.
A escola ensina que, se você não é brilhante, corajoso ou excepcional, você é invisível, ou talvez ainda pior... você é indesejável. E o que é mais perverso: quando Neville finalmente mostra coragem, enfrentando os amigos para impedir que se metam em mais uma confusão, isso é tratado como algo “surpreendente”, quase “milagroso”. Dumbledore lhe dá dez pontos, um gesto bonito, sim, mas que também escancara o problema: É preciso que o menino “milagrosamente” tenha um momento heroico para ser reconhecido como digno de respeito.

O ápice desse colapso pedagógico ocorre em "A Ordem da Fênix", quando Dolores Umbridge é nomeada professora e depois alta inquisidora de Hogwarts. A presença dela não inaugura o autoritarismo na escola; apenas o torna oficial, institucional, visível. Tudo aquilo que antes se manifestava de forma difusa - humilhações, punições arbitrárias, desprezo pelos alunos - agora ganha a chancela do Ministério da Magia. Umbridge não cria o problema; ela o revela. Sua figura é a burocratização da crueldade: a crença de que ensinar é controlar, e que o medo é uma ferramenta legítima de disciplina. Sob seu comando, Hogwarts deixa de ser uma escola e se transforma em uma máquina de adestramento, onde a obediência cega substitui o aprendizado. É a pedagogia do castigo erguida ao status de política oficial. Quando Umbridge tortura Harry - e mais uma dezena de alunos - a resposta institucional do corpo docente, expressa especialmente na figura da professora McGonagall, é "aguentem firme, não tem outro jeito".

O que torna essa parte da saga especialmente reveladora é que, mesmo diante do autoritarismo explícito de Umbridge, as estruturas que poderiam impedi-la não existem. Dumbledore foge, os professores se calam, os alunos se organizam clandestinamente porque o sistema institucional não oferece nenhum caminho legítimo para a resistência. A “Armada de Dumbledore” surge, na prática, como uma tentativa desesperada de recuperar o sentido original de educação - aprender, dialogar, agir coletivamente: quando Harry se torna "professor" dos colegas, há de fato um momento de aprendizado coletivo, com base em experiências práticas e educação dialógica. E é sintomático que isso só aconteça fora da autoridade da escola, à margem dela. Quando o conhecimento deixa de ser mediado pela imposição e passa a ser partilhado, os alunos finalmente aprendem de verdade. Nesse ponto, Rowling parece tocar no coração do problema: Hogwarts só cumpre seu papel educativo quando se rebela contra si mesma.

Alguns poderiam dizer que esse texto crítico não se aplica à realidade da escola porque os bruxos são excêntricos e antiquados mesmo, e que portanto faria sentido narrativo que Hogwarts seja uma escola extremamente rígida e com pouco apreço pela saúde ou mesmo segurança dos alunos, afinal, esses temas não seriam discutidos Sobre isso... eu tenho algumas coisas a dizer.

A representação da educação em "Harry Potter" não é uma construção inocente, tampouco neutra. Ela reflete concepções pedagógicas e morais próprias da cultura escolar britânica dos anos 1990 e 2000, um período em que o debate sobre práticas educativas democráticas, a escuta do aluno e o combate ao bullying começava a ganhar força nas universidades e nas políticas públicas, especialmente sob influência de autores como Paulo Freire, bell hooks e outros pedagogos críticos. Enquanto parte do mundo acadêmico discutia o papel emancipador do ensino e a necessidade de romper com estruturas autoritárias e hierárquicas, a narrativa que se passa em Hogwarts preserva e até celebra uma pedagogia baseada na humilhação, na competição e no mérito individual. A figura do professor como autoridade infalível, que corrige através do medo ou da vergonha, é apresentada não apenas como aceitável, mas como parte essencial da "formação de caráter" dos alunos. Assim, o universo de Rowling traduz, ainda que inconscientemente, um olhar conservador sobre a escola: a dor e a rigidez seriam mecanismos legítimos de aprendizagem e superação. 

Essa escolha narrativa - porque sim, é uma escolha - também dialoga, conscientemente ou não, com um contexto sociopolítico mais amplo. Nos anos 1990, enquanto o neoliberalismo moldava políticas educacionais com foco em desempenho e rankings, o que reduzia a escola a um espaço de avaliação e disciplina, a série transforma o colégio em palco dessas mesmas dinâmicas, travestidas de fantasia. Professores como Snape e Umbridge encarnam modelos distintos de autoritarismo, mas ambos legitimam a opressão em nome da ordem ou da excelência. Em contraste, uma leitura freireana questionaria justamente essa lógica bancária de educação, na qual o professor deposita saber e o aluno deve apenas absorver. A ausência de diálogo, a punição simbólica e o descaso com o sofrimento estudantil (como o de Neville ou os castigos físicos impostos por Umbridge) revelam não apenas um problema ético, mas uma posição política: a crença de que a escola serve para moldar e submeter, não para libertar. Assim, a saga de Rowling se torna, inadvertidamente, um espelho das contradições de seu tempo entre o discurso de formação moral e as práticas que perpetuam exclusão e violência simbólica.

É fundamental compreender que nenhuma obra de ficção existe fora de sua própria temporalidade. Mesmo quando ambientada em universos paralelos, passados imaginários ou sistemas mágicos, toda narrativa reflete os valores, tensões e contradições do tempo histórico em que foi concebida. "Harry Potter", portanto, não pode ser interpretado como um retrato inocente de uma “época antiga” ou de uma tradição escolar distante, pois sua escrita e publicação - entre o final dos anos 1990 e o início dos 2000 - dialogam diretamente com o contexto cultural e pedagógico desse período. A tentativa de deslocar a responsabilidade crítica sob o argumento de que a obra “retrata outro tempo” ignora o fato de que o olhar da autora é o de uma mulher britânica contemporânea, formada por debates e disputas éticas próprios de seu tempo histórico. Assim, ainda que Hogwarts seja objetivamente uma escola que remonta os tempos medievais em sua aparência, e que pareça uma escola vitoriana transplantada para o século XX, ela carrega e reproduz valores educacionais e morais que eram, e em muitos aspectos ainda são, amplamente normalizados pela sociedade neoliberal moderna.

Essa perspectiva desarma qualquer leitura que tente isentar "Harry Potter" de crítica social sob o pretexto da fantasia ou da tradição. Ao contrário, a série funciona como um registro ideológico de seu momento: um tempo em que o autoritarismo escolar e o bullying ainda eram vistos como “parte do crescimento”, e em que o sucesso individual era constantemente colocado acima da solidariedade coletiva. Ao projetar esses valores num universo mágico, Rowling não apenas os perpetua, mas os naturaliza — o que reforça a importância de ler a obra em diálogo com sua contemporaneidade, reconhecendo que a ficção, mesmo quando mágica, nunca está fora do mundo real que a produz.

Mesmo construindo um ambiente institucional desastroso, Rowling demonstra consciência de temas sociais que estavam em debate na sua contemporaneidade. Um exemplo claro é quando Hermione, cuja postura reflete pautas sobre preconceito, igualdade e direitos de seres oprimidos, tanto em sua própria condição como aluna nascida-trouxa, quanto no caso dos elfos domésticos e da campanha pelo “F.A.L.E” (Fundo de Apoio à Liberação do Elfo). Esses episódios mostram que a autora estava atenta a discussões sobre justiça social e inclusão, debates que, nos anos 1990 e 2000, ganhavam cada vez mais relevância em ambientes acadêmicos e escolares ao redor do mundo.

No entanto, quando analisamos a obra retrospectivamente, fica evidente que essas iniciativas são marginais e recebem pouca ou quase nenhuma adesão no universo da narrativa. A campanha de Hermione é ridicularizada pelos colegas e professores; nenhuma mudança institucional significativa ocorre; o preconceito estrutural e a opressão permanecem intactos. Esse contraste evidencia a força da visão pedagógica que domina Hogwarts: uma escola onde a autoridade é absoluta, a humilhação é normalizada e a justiça social é ignorada, mesmo quando explicitamente apresentada como ideal. Assim, a tentativa de Rowling de introduzir temas contemporâneos, tais como justiça, igualdade, crítica a opressão, acaba reforçando a leitura de que Hogwarts funciona como um ambiente onde a negligência institucional e o autoritarismo são normalizados, independentemente do contexto histórico ou do posicionamento moral dos personagens.

Para concluir... acredito que eu tenha demonstrado suficientemente, ao longo desse texto, que a Hogwarts de J.K. Rowling não é mero cenário de um Universo mágico denso para aventura fantasiosas; é uma instituição pedagógica profundamente falha, onde autoritarismo, humilhação e negligência são naturalizados e celebrados como parte da formação moral dos alunos. A saga de Rowling nos apresenta professores abusivos, colegas cruéis e um sistema que ignora o sofrimento dos estudantes mais vulneráveis, como Neville, ao mesmo tempo em que permite que tentativas de justiça social, como as de Hermione, sejam apresentadas, mas permaneçam marginais e quase irrelevantes. Essa dinâmica não é fruto do acaso ou de uma estética antiquada, mas sim de escolhas narrativas conscientes que refletem, de forma muitas vezes contraditória, a visão da autora sobre educação e autoridade. Longe de existir fora de seu tempo, a obra passa muito tangencialmente - quando não menospreza - debates pedagógicos e sociais dos anos 1990 e 2000, revelando que mesmo em um universo mágico, práticas de exclusão, violência simbólica e negligência institucional permanecem perigosamente plausíveis, e que, ao final, a lição mais clara de Hogwarts talvez seja a necessidade de questionar sistemas de poder que se apresentam como naturais e incontestáveis. 

Hogwarts pode ser mágica, mas sob seu véu de encanto e aventura, a escola ensina que sofrimento, humilhação e medo são caminhos aceitáveis para formar uma criança e isso é algo que, fora da ficção, ninguém deveria aceitar. Portanto, nos dias de hoje, sigo gostando - muito criticamente - da saga, mas sendo bem sincero, eu não recomendaria a leitura de Harry Potter hoje em dia sem muitas ressalvas.

 

domingo, 27 de abril de 2025

Sobre a publicação ilegal de Urusei Yatsura...

Pensei bastante sobre a questão da publicação ilegal de Urusei Yatsura. 
Cheguei a dizer, em conversas com amigos, que o dono da editora havia sido muito imbecil ao fazer isso. Mas acho válido refletir melhor, de forma racional, para entender as razões que levam a esse tipo de situação.
Ou alguém realmente acredita que isso aconteceria se o mercado brasileiro de quadrinhos e mangás não fosse tão excludente?

Longe de mim defender acriticamente a publicação de obras piratas no Brasil, seja de livros ou quadrinhos. Legalmente, a linha é bastante tênue entre o desejo de disponibilizar uma obra para o público e o desrespeito às normas que regem o licenciamento.



O dono da editora que publicou Urusei Yatsura está errado?


Legalmente falando, obviamente está.

Entretanto, jamais me verão dizendo que ele foi, nossa, “um estúpido” — ou, pior, caguetando para a editora japonesa. No máximo, foi ingênuo ao acreditar que poderia publicar o mangá sem licença e sair ileso — o que, acredito, não acontecerá.


O Brasil se lambuza em pirataria, e isso é uma idiossincrasia nacional: todos nós crescemos em um lugar onde consumir ou até comprar produtos piratas faz parte do nosso DNA cultural. Se isso é bom ou ruim, é outro debate, mas estes são os fatos. 

Apesar de sermos, proporcionalmente, o maior mercado da América Latina para os japoneses — e, diga-se, para qualquer outro país que licencie obras em quadrinhos — seguimos sendo periferia do capitalismo, e nunca devemos esquecer isso. O poder de compra do brasileiro para livros e revistas é, via de regra, extremamente limitado.


Em um mundo onde um colecionável da Pipoca & Nanquim (e digo colecionável mais do que quadrinho ou mangá, porque é assim que eles vendem) pode custar facilmente mais de 200 reais, atos de paixão e tolice merecem algum nível de compreensão (compreensão, não leniência) por parte do público — nós, que estamos à mercê de editoras como Panini e JBC, que, de certa forma, monopolizam o acesso e estipulam preços muito altos sabendo que seu público, ainda assim, tentará acompanhar.

E não tentemos aqui nos grudar a um moralismo barato do tipo "ah, mas e o autor original?".


Sabemos que, mesmo com a obra licenciada, a maior parte dos lucros permanece com as editoras — pouquíssimo de fato vai para os autores. Alguns poucos conseguem se tornar muito ricos, como Toriyama e Kurumada, mas são exceções raríssimas.
Enquanto o mercado brasileiro de mangás, quadrinhos e afins for regido por lógicas excludentes, casos como o de Urusei Yatsura continuarão a surgir — não como atos de maldade, mas como sintomas de um sistema doente. A pergunta que fica é: estamos dispostos a pressionar por mudanças estruturais ou vamos seguir fingindo que o problema mora apenas na ‘burrice’ de um editor pirateiro?

Não sejamos hipócritas: nós amamos o pecado. Só detestamos o pecador.

sexta-feira, 21 de junho de 2024

Mônaco-1984: uma vitória tirada de Senna? Reflexões sobre responsabilidade e segurança no esporte a motor

Faz tempo que não escrevo nesse blog, e sinceramente não sinto saudades de fazê-lo. O tempo é curto, o dinheiro não vai se ganhar sozinho e o fato é que eu estou, há muito tempo, sem tanta inspiração para a escrita. 

Jamais eu teria encontrado
isso aqui na Amazon, hoje
responsável por praticamente
destruir o comércio nacional de livros

Este blog começou como um lugar onde eu escrevia exclusivamente sobre automobilismo. E jamais voltará a ser assim. Pois o mundo mudou, e eu mudei com ele. O automobilismo era, para mim, um hiperfoco gigantesco. Para quem me conhece, sou autista nível 1 de suporte. Para pessoas como nós, é muito fácil cair em hiperfocos que tomam literalmente todo o nosso tempo e dominam a nossa mente de tal forma que só queremos saber daquilo. Hiperfoco, aliás, que foi muito forte em minha infância e adolescência quando se trata de automobilismo, em especial, a Fórmula 1. Na foto ao lado, um anuário que encontrei recentemente, que deu uma reacendida em meu hiperfoco nos últimos dias. Felizmente, de uma maneira bem menos destrutiva para mim do que havia sido em meu período mais infante.

Mas enfim, isso tudo é uma grande embromação pra tornar o texto um pouquinho maior, e fazer as pessoas ficarem um pouco mais de tempo neste espaço. 

Brincadeira. Ou não. Risos.

Ao assunto do título, pois.



O Grande Prêmio de Mônaco de 1984 entrou para a história do automobilismo.

E não é para menos. É uma corrida absolutamente histórica, que apresentou ao mundo dois talentos gigantescos, duas promessas do que seria a Fórmula 1 na segunda metade dos anos 80 em diante.

Ayrton Senna e Stefan Bellof, naquela tarde diluvial, apresentaram seus cartões de visitas ao mundo, e vinham demolindo meio grid rumo à liderança do Grand Prix. O mundo estava boquiaberto ao ver como Senna, no molhado, ao volante da relativamente modesta Toleman (já falarei sobre este "relativamente"), vinha jambrolhando o grid, com direito a uma ultrapassagem por fora na entrada da Saint Devote sobre Niki Lauda. Bellof, por sua vez, vinha também fazendo corrida brilhante, e era o carro mais veloz da pista quando a prova foi encerrada. 

Falarei isso baixinho aqui pra vocês... mais rápido que Ayrton, inclusive.

Cabe dizer que o carro de Senna podia não ser nenhuma brastemp, mas foi projetado por ninguém menos que Rory Byrne e Pat Symonds. Byrne se consagrou com as Ferrari de Michael Schumacher anos depois, e Symonds se tornou o projetista responsável pelas Renault dos dois títulos de Fernando Alonso. Além disso, era empurrado pelo motor Hart 415T, que, de acordo com o blog britânico Stavtech nesse texto aqui, em 1984 poderia chegar a 800 cavalos, o que não era um déficit tão grande se comparado a outros times da época.

Quando a corrida se aproximava das voltas 30 a 31, Alain Prost, da McLaren-TAG Porsche, que havia largado da pole, acenava aos boxes, solicitando à direção de prova que a corrida fosse encerrada, pois em sua visão, não havia condições para continuar. O diretor de prova, Jacky Ickx, encerrou a contenda no 31º giro. Ao encerrar a prova em bandeira vermelha, valiam os resultados da volta anterior, e por isso, a vitória ficou com Prost, com Senna em segundo e Bellof em terceiro (depois, o alemão seria desclassificado, pois as Tyrrell estavam abaixo do peso). Resultado que, por ironia do destino, fez Prost perder o campeonato mundial para Lauda por meio ponto. Risos.


A impressão geral que ficou deste resultado foi de certa revolta passivo-agressiva em relação a esse desfecho, com requintes de teoria da conspiração e meias-verdades que deram tônus muscular à tese de que o regulamento teria sido ma
nipulado para dar a vitória a Prost, McLaren e Porsche (a fornecedora de motores do carro do francês). E quando você junta todos estes fatores, tudo faz muito sentido. Ora, Jacky Ickx era um piloto histórico da marca alemã no Mundial de Endurance, tendo vencido as 24 Horas de Le Mans seis vezes, quatro delas pilotando carros históricos da esquadra de Stuttgart, como o 936 e o 956. A McLaren era já estabelecida como um time tradicional na Fórmula 1, com títulos de Emerson Fittipaldi e James Hunt em anos anteriores. Prost era francês, sendo Mônaco um principado que ficava muito próximo do território francês. E, claro, havia Jean-Marie Balestre, o protótipo de ditador, que tinha relação extremamente próxima do piloto da McLaren, e que nos anos seguintes, seria o carrasco da decisão de 1989 que favoreceu o tricampeonato de Prost após a batida proposital em Senna. E não ajudou o fato de que em 1996, Balestre ter declarado à imprensa que teria dado uma "ajudinha" para Prost levar o caneco na disputa contra o brasileiro.

Tudo isso deixou o imaginário popular brasileiro muito suscetível à ideia de que Ayrton Senna deveria ter sete vitórias no GP de Mônaco, e não teve porque a cartolagem na categoria jogou a favor de Prost.

Mas será que foi realmente isso? Será mesmo que todos estes fatores esgotam o assunto?

Em minha visão, não. E esta é a razão de esse texto existir.

Em primeiro lugar, uma pequena nota de rodapé no meio do texto, pois quero tirar o meu da reta. Não sou um "hater" de Ayrton Senna. Admiro o legado do brasileiro, um dos maiores e melhores pilotos de todos os tempos, possuo e li algumas das MUITAS biografias já produzidas sobre Ayrton. Mas, definitivamente, não sou um passador de pano, e acredito sim que o brasileiro foi um piloto falível, eventualmente um piloto sujo na pista. Sim, para mim, a batida com Prost em 1990 foi culpa dele e eu não dou viés de validação a essa batida por ser uma vingança pessoal pela farofada do ano anterior. Cada um com sua consciência, a minha está limpíssima. Não levo revanchismos às últimas consequências como muitos fãs brasileiros fazem, tais como aqueles que adoram deixar mensagens carinhosas nas redes sociais, como "Michael Schumacher está pagando em vida o mal que fez nas pistas da Fórmula 1". Sem mais comentários, esse trecho do texto ficou bem maior do que deveria.

Voltando ao tema do texto.

Não acho que o desfecho da prova de Mônaco foi uma injustiça contra Senna e uma grande conspiração para favorecer Prost. Por alguns motivos, os quais elencarei adiante.

De fato, a chuva que caía em Monte Carlo aquele dia era intensa. Tão intensa que o início da prova foi atrasado em 45 minutos. Alguns pilotos já haviam sofrido acidentes àquela altura do Grand Prix, incluindo um acidente na largada que sacou do campo as duas Renault, de Patrick Tambay e Derek Warwick. Ambos saíram machucados: Tambay quebrou uma perna, e Warwick saiu com escoriações na perna direita, num acidente que também envolveu Andrea de Cesaris e François Hesnault, ambos da Ligier. Nigel Mansell, que chegou a liderar, espatifou sua Lotus no guard-rail na subida após a Saint Devote, e depois na entrada da Mirabeau. E houve outros acidentes envolvendo outros pilotos, como Niki Lauda e do próprio Ayrton Senna, que danificou sua suspensão dianteira direita em uma batida, e ignorou ordens de equipe para não utilizar as zebras dali em diante, deteriorando cada vez mais a suspensão de sua TG184. 

Como afirma o insuspeito jornalista Luis Fernando Ramos neste texto aqui, a chuva, que já era enorme no começo da corrida, se intensificou da volta 20 em diante, e nas voltas anteriores à interrupção, os pilotos já registravam tempos cerca de cinco segundos mais lentos do que já haviam registrado anteriormente. A corrida, de fato, estava perigosa. Inclusive, o carro de Senna corria sério risco de se desmanchar devido a este dano na suspensão em poucas voltas se a corrida não fosse encerrada. Ramos, inclusive, se pergunta no texto acima linkado, o que poderia ter acontecido se o carro de Senna tivesse se desmanchado, por exemplo, na saída do Túnel, citando o gravíssimo acidente de Karl Wendlinger na mesma pista, dez anos depois. Do ponto de vista da segurança, a decisão de Jacky Ickx, como se pode ver, foi absolutamente acertada.

Já a desistência de Alain Prost e suas solicitações efusivas para encerrar a prova? Será que era mesmo só porque queria vencer? Deixo isso para a interpretação do leitor, mas vou elaborar uma digressão no texto para comentar um pouco sobre questões de segurança no automobilismo. 


A princípio, cabe dizer o seguinte: Jo Ramirez, coordenador da McLaren, teria confirmado que Prost vinha sofrendo com problemas em seus freios dianteiros, e estava utilizando apenas os freios traseiros e freio-motor (ou seja, freando o carro utilizando os giros do motor para controlar a velocidade). Em pista seca isso já seria um problema. Em chuva, logicamente ainda mais perigoso. E aqui vou apenas - APENAS - supor que Prost estava informado via rádio acerca do acidente grave envolvendo Warwick e Tambay na primeira volta. Fora os outros acidentes que haviam ocorrido no decorrer da disputa.

Mas cabe também falar sobre outro aspecto relevante.

Alain Prost, àquela época, era um dos principais defensores da causa pela segurança no automobilismo. Os anos 80 e a era Turbo haviam transformado os motores da Fórmula 1, que já eram rápidos, em verdadeiros monstros de desempenho. Mas isso também trouxe sérios impactos na segurança. Mesmo com relativamente menos potência, os anos 70 também haviam sido marcados por acidentes assustadores resultando em morte, como os de Roger Williamson, Ronnie Peterson e Rolf Stommelen, e o famoso acidente em 1976 com Niki Lauda no Nurburgring-Nordschleife, que quase tirou a vida do austríaco e deixou seu rosto irreconhecível.

Os GPs de Mônaco nos anos anteriores vinham sendo corridas especialmente esquisitas no quesito segurança. A edição de 1982 da corrida no principado, aliás, ocorreu logo depois do GP da Bélgica que havia vitimado Gilles Villeneuve de maneira assustadora. E também foi uma corrida de acidentes estranhos. O próprio Prost bateu na saída da Chicane do Porto, num acidente que desmanchou o bólido e teve pneu voando pela pista. Poucos meses depois, o GP da Alemanha de 1982 teve o gravíssimo acidente entre Prost e Didier Pironi, da Ferrari, no qual Pironi encheu a traseira da Renault com força e  capotou algumas vezes antes do carro parar. Não há imagens do acidente, mas o fato é que Pironi ficou preso no carro por bastante tempo antes de ser resgatado. Nelson Piquet, que o socorreu, foi quem retirou o cinto e o capacete de Pironi, e ficou chocado ao ver a imagem angustiante do piloto, que sangrava muito e teve confirmadas sérias lesões em suas duas pernas. O acidente encerrou ali mesmo a carreira de Pironi na Fórmula 1. Importante lembrar, também, que no mesmo ano, morreu Riccardo Paletti no GP do Canadá de 1982, em outro acidente violento. 

É possível dizer que Prost tenha sofrido um transtorno de estresse pós-traumático após todos esses acidentes? Não cheguei a encontrar nenhuma fonte oficial confirmando, mas há evidências de que sim. Inclusive, de posse de tais informações, torna-se compreensível o motivo de Alain ser um dos pilotos que mais tinham dificuldade em condições de pista molhada, que inclusive o tornavam presa fácil em certas corridas históricas disputadas sob chuva nos anos seguintes, como o GP da Inglaterra de 1988 e o GP de San Marino de 1991. Este último, aliás, marcado pela infame rodada de Prost ainda na volta de aquecimento de pneus. Hoje, costumamos achar as corridas sob chuva muito divertidas, pela quantidade de caos e imprevisibilidade que normalmente elas trazem, mas o fato é que correr sob chuva é e sempre foi um grande desafio para a Fórmula 1 em termos de segurança.

Prevejo alguns comentários do tipo "ah, mas a Fórmula 1 sempre foi perigosa, o automobilismo sempre foi esporte de risco, então mortes fazem parte". 

E é verdade, o automobilismo é perigoso pela própria natureza do esporte: pilotos correm uns contra os outros em carros de altíssima velocidade, podendo se estatelar no muro a qualquer momento. Mas as mortes são sempre traumáticas quando acontecem, e põem o esporte em tremendo questionamento sobre sua própria existência, de modo que mudanças em prol da segurança sempre foram necessárias a fim de evitar ao máximo a possibilidade de qualquer acidente mais grave acontecer. Lembremos que o próprio Senna foi tirado de nós muito cedo devido a falhas de segurança. Portanto, nós, como fãs brasileiros, temos a obrigação de ser os primeiros a exigir corridas mais seguras.

Minha conclusão, depois de tudo, é que o Grande Prêmio de Mônaco de 1984 não foi "tirado de Senna". Ele foi interrompido corretamente, sustentado por evidências de que a corrida estava perigosa demais para continuar, em uma categoria já traumatizada por três acidentes assustadores nos anos anteriores, com direito a duas violentas mortes. Seus principais pilotos, como Alain Prost e Nelson Piquet, advogavam por mais segurança nas corridas. Mortes nunca foram admissíveis, mas nessa época, elas definitivamente começaram a se tornar intoleráveis. Ainda bem!

E para a pachecada que adora uma teoria da conspiração, fica a sugestão de reflexão, pois além de tudo que foi apresentado acima, também temos indícios suficientes para concluir que, caso a corrida continuasse, o vencedor poderia muito bem não ter sido o brasileiro àquela tarde.

Haverá quem leia esse texto e siga firme na tese conspiratória? Claro que haverá.

Por mim, sigo cá com minha consciência tranquila.