quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Harry Potter e a Pedagogia da Humilhação


 Defending Severus Snape | Harry Potter Amino

 

Desde muito novo, eu sou fã de Harry Potter. Pode-se dizer que as obras da autora J.K Rowling me encantaram por décadas, com sua história cativante, protagonistas carismáticos, suspenses tensos e drama envolvente e o principal, um Universo Mágico extremamente envolvente, porém em grande medida simples e direto ao ponto. Uma saga que desafiou gigantes como Star Wars, Star Trek e até, em alguma medida, Senhor dos Anéis em popularidade, e que foi, por muito tempo, uma unanimidade em matéria de fantasia para crianças e adolescentes. Esse público, por sinal, cresceu com Harry Potter, numa época em que a coisa era mais ou menos Deus no céu e J.K. Rowling na terra, com a autora vivendo o ápice da popularidade, sendo tida como uma "fada sensata" pela maior parte da sociedade. A franquia era uma máquina de imprimir dinheiro infinito, então parecia tudo muito bom para todo mundo, ainda mais com "Animais Fantásticos" saindo e tendo alguma aderência do público.

Mas... algumas coisas mudaram nos últimos 5 ou 6 anos. A autora não é mais uma unanimidade em face de seus posicionamentos transfóbicos, "Animais Fantásticos" recebeu backlashing tremendo em face à bagunça nos bastidores com a troca do ator do vilão, e "Harry Potter", hoje, sofre muitas críticas retroativas hoje em dia por aspectos que, ao que parece, eram relevados ou pouco notados, mas que ganharam força em face à derrocada da figura pública da autora. Eu não vou entrar muito em detalhes porque isso seria tema para outro texto.

Cá estou com meus 32 anos, e talvez - TALVEZ - eu tenha como contribuir com mais um aspecto no qual eu acredito que Harry Potter tenha falhado flagrantemente em sua saga.

Já repararam como essa escola sofre profundamente de uma péssima administração pedagógica, qualquer que seja o diretor? 

Porque, sejamos sinceros: Hogwarts é uma das piores escolas já retratadas na ficção moderna. E não digo isso por implicância — é mais por observação e análise pedagógica e dialógica. Quase todos os professores, de uma forma ou de outra, praticam humilhações públicas, aplicam punições arbitrárias e não têm qualquer preparo emocional ou pedagógico para lidar com crianças e adolescentes. E o mais curioso: a narrativa nunca contesta isso. O autoritarismo e a humilhação são tratados como traços excêntricos e até carismáticos de Hogwarts. "Parte do charme".

É como se a própria saga dissesse “aqui é assim mesmo, aceite”. Por sinal, há uma linha de "Pedra Filosofal" onde Malfoy, ao contestar a detenção sofrida por estar fora da cama após denunciar a turma de Harry por cometer a mesma infração, recebe de Hagrid a resposta de que "Hogwarts é assim". A detenção: acompanhar Hagrid em uma missão na Floresta Proibida, que Dumbledore disse, na primeira noite do ano letivo, ser proibida a todos os estudantes. Paciência.

Se existe um nome que simboliza o que há de mais problemático na dinâmica pedagógica de Hogwarts, esse nome é Severo Snape. A saga o pinta como um personagem complexo — e ele é, sem dúvida. Um homem ferido, cheio de contradições, preso ao passado e guiado por ressentimentos. Mas uma coisa não pode ser romantizada: Snape é um péssimo professor. Não é apenas uma questão de “rigor” ou “exigência”. É uma questão de abuso de autoridade. Ele humilha publicamente alunos, faz comentários pessoais e cruéis, pune desproporcionalmente e, o mais grave, alimenta um ambiente de medo e constrangimento como método pedagógico. Sua forma de ensino se baseia em rebaixar quem erra — ou quem simplesmente não gosta.

Neville Longbottom é talvez a maior vítima dessa postura: um aluno inseguro, claramente com sintomas de ansiedade e medo crônico, tratado por Snape como se fosse um estorvo. Há uma cena que diz muito sobre isso: quando o Bicho-Papão de Neville assume a forma do próprio Snape. Pensa bem — o professor é literalmente o maior medo de um aluno de 13 anos. Isso, em qualquer escola do mundo real, seria motivo de intervenção imediata. Em Hogwarts, no entanto, é tratado quase como uma piada.

E não para por aí. Snape ridiculariza Hermione por seu esforço e inteligência (“Nossa insuportável sabe-tudo”), humilha Harry sempre que pode por motivos pessoais ligados ao pai dele, e protege os sonserinos mesmo quando eles agem de forma claramente antiética — o caso de Draco é emblemático. Tudo isso seria apenas antipático, se não fosse o fato de que a narrativa, por anos, nunca o responsabiliza

O grande truque da série é transformar o sofrimento que Snape causa em uma espécie de “preço da complexidade moral”. Como se a dor que ele inflige fosse compensada por sua lealdade final ou por seu amor trágico por Lílian Potter. Mas não é assim que educação funciona. O arrependimento de um adulto não apaga o trauma de uma criança. E nada justifica o uso sistemático da humilhação como ferramenta de ensino. Quando deveria ser o adulto na sala, o professor age com muitos traços da criança humilhada e negligenciada que foi em seus anos de escola, repetindo o ciclo.

O mais assustador é que o texto nunca oferece um contraponto institucional. Dumbledore, que deveria ser o responsável por supervisionar seus professores, nunca intervém. Nenhum colega o confronta.
Nenhum aluno tem a quem recorrer. É como se o abuso fosse naturalizado, diluído na aura de “mistério” e “respeito” que envolve Snape. O problema, no entanto, vai além de Snape e sua coleção de abusos verbais. A questão é estrutural. Hogwarts é uma instituição que confunde autoridade com autoritarismo, e disciplina com humilhação. Não há um único indício, ao longo de sete livros e oito filmes, de que exista um conselho pedagógico, um psicólogo, ou sequer um protocolo para lidar com traumas e bullying — algo irônico em uma escola que abriga alunos órfãos de guerra, perseguidos por seus próprios familiares e constantemente expostos ao perigo.

E o mais impressionante é que isso nunca é tematizado, nunca é objeto de crítica interna. Nem Dumbledore, nem McGonagall, nem ninguém jamais questiona o método de outro professor. Snape pode humilhar Neville até ele desabar de medo, Trelawney pode traumatizar alunos com previsões de morte, e o zelador Filch pode desejar tortura física — e tudo é tratado com naturalidade, como “parte do charme” de Hogwarts.

E se Snape é o rosto mais visível do problema, Neville Longbottom é o corpo que carrega suas consequências. Poucos personagens representam tão bem o fracasso pedagógico de Hogwarts quanto ele.
Desde o primeiro livro, Neville é ridicularizado — pelos professores, pelos colegas e, o que é pior, pela própria estrutura da escola, que não oferece nenhuma forma de amparo. O menino é desastrado, inseguro e sofre com a memória dos traumas familiares. É o tipo de aluno que, no mundo real, despertaria preocupação genuína de qualquer educador. Mas em Hogwarts, ele vira alvo cativo de humilhações e piadas. Snape o aterroriza a ponto de o garoto tremer durante as aulas. McGonagall, ainda que muito mais justa e respeitável, também o expõe ao ridículo em certos momentos, tratando suas falhas como falta de esforço, e não como sinais de medo ou ansiedade. Nem Hagrid, que deveria ser a figura mais empática, demonstra perceber o quanto Neville é constantemente marginalizado E o mais doloroso é que nem os amigos de sua própria casa o poupam. Rony e até Harry, em vários momentos, zombam de suas trapalhadas ou o tratam como um peso morto — algo que a narrativa apresenta de forma leve, como “alívio cômico”. Só que não há nada de cômico em ver uma criança ser diminuída repetidamente até acreditar que não tem valor. 

Um dos exemplos mais gritantes da negligência ocorre em "Harry Potter e a Câmara Secreta", quando Neville é atingido pelo grito de uma mandrágora durante a aula de Herbologia e desmaia. O filme deixa claro que essas mandrágoras, embora ainda jovens, possuem gritos capazes de deixar qualquer aluno inconsciente por horas — um perigo real, mesmo que não letal. No entanto, a reação da professora Sprout é notavelmente displicente: “tudo bem, deixem ele aí”. Ninguém leva Neville à ala hospitalar, ninguém avalia seu estado, ninguém toma qualquer medida de segurança mínima. Ele é simplesmente abandonado no chão, enquanto a aula continua.

Esse episódio é sintomático de uma cultura escolar que normaliza o sofrimento e a exposição ao risco como parte da experiência educativa. Não se trata de um erro isolado de um professor distraído, mas de um padrão que percorre toda a escola: a vida e a segurança dos alunos são secundárias à continuidade das aulas e à manutenção da autoridade docente. Neville, o estudante mais vulnerável, é repetidamente colocado em situações de perigo e humilhação — às vezes pela crueldade explícita de Snape, outras vezes pela indiferença ou negligência de professores que deveriam protegê-lo. Essa cena evidencia que Hogwarts não é apenas um ambiente difícil ou desafiador, mas um espaço institucionalmente cego às necessidades de seus alunos mais frágeis, reforçando a leitura de que a série naturaliza práticas pedagógicas abusivas.

O caso de Neville é um retrato cristalino do que Bourdieu chamaria de violência simbólica — aquela que se exerce de forma tão naturalizada que nem parece violência - imposta através de ideias e significados. Em Hogwarts, ela está em todo lugar: nas piadas, nas comparações, nas notas, na ausência de acolhimento.
A escola ensina que, se você não é brilhante, corajoso ou excepcional, você é invisível, ou talvez ainda pior... você é indesejável. E o que é mais perverso: quando Neville finalmente mostra coragem — enfrentando os amigos para impedir que se metam em mais uma confusão —, isso é tratado como algo “surpreendente”, quase “milagroso”. Dumbledore lhe dá dez pontos, um gesto bonito, sim, mas que também escancara o problema: É preciso que o menino “milagrosamente” tenha um momento heroico para ser reconhecido como digno de respeito.

O ápice desse colapso pedagógico ocorre em "A Ordem da Fênix", quando Dolores Umbridge é nomeada professora — e depois alta inquisidora — de Hogwarts. A presença dela não inaugura o autoritarismo na escola; apenas o torna oficial, institucional, visível. Tudo aquilo que antes se manifestava de forma difusa — humilhações, punições arbitrárias, desprezo pelos alunos — agora ganha a chancela do Ministério da Magia. Umbridge não cria o problema; ela o revela. Sua figura é a burocratização da crueldade: a crença de que ensinar é controlar, e que o medo é uma ferramenta legítima de disciplina. Sob seu comando, Hogwarts deixa de ser uma escola e se transforma em uma máquina de adestramento, onde a obediência cega substitui o aprendizado. É a pedagogia do castigo erguida ao status de política oficial. Quando Umbridge tortura Harry - e mais uma dezena de alunos - a resposta institucional do corpo docente, expressa especialmente na figura da professora McGonagall, é "aguentem firme, não tem outro jeito".

O que torna essa parte da saga especialmente reveladora é que, mesmo diante do autoritarismo explícito de Umbridge, as estruturas que poderiam impedi-la não existem. Dumbledore foge, os professores se calam, os alunos se organizam clandestinamente porque o sistema institucional não oferece nenhum caminho legítimo para a resistência. A “Armada de Dumbledore” surge, na prática, como uma tentativa desesperada de recuperar o sentido original de educação — aprender, dialogar, agir coletivamente: quando Harry se torna "professor" dos colegas, há de fato um momento de aprendizado coletivo, com base em experiências práticas e educação dialógica. E é sintomático que isso só aconteça fora da autoridade da escola, à margem dela. Quando o conhecimento deixa de ser mediado pela imposição e passa a ser partilhado, os alunos finalmente aprendem de verdade. Nesse ponto, Rowling parece tocar no coração do problema: Hogwarts só cumpre seu papel educativo quando se rebela contra si mesma.

Alguns poderiam dizer que esse texto crítico não se aplica à realidade da escola porque os bruxos são excêntricos e antiquados mesmo, e que portanto faria sentido narrativo que Hogwarts seja uma escola extremamente rígida e com pouco apreço pela saúde ou mesmo segurança dos alunos, afinal, esses temas não seriam discutidos Sobre isso... eu tenho algumas coisas a dizer.

A representação da educação em "Harry Potter" não é uma construção inocente, tampouco neutra. Ela reflete concepções pedagógicas e morais próprias da cultura escolar britânica dos anos 1990 e 2000 — um período em que o debate sobre práticas educativas democráticas, a escuta do aluno e o combate ao bullying começava a ganhar força nas universidades e nas políticas públicas, especialmente sob influência de autores como Paulo Freire, bell hooks e outros pedagogos críticos. Enquanto parte do mundo acadêmico discutia o papel emancipador do ensino e a necessidade de romper com estruturas autoritárias e hierárquicas, a narrativa que se passa em Hogwarts preserva — e até celebra — uma pedagogia baseada na humilhação, na competição e no mérito individual. A figura do professor como autoridade infalível, que corrige através do medo ou da vergonha, é apresentada não apenas como aceitável, mas como parte essencial da "formação de caráter" dos alunos. Assim, o universo de Rowling traduz, ainda que inconscientemente, um olhar conservador sobre a escola: a dor e a rigidez seriam mecanismos legítimos de aprendizagem e superação. 

Essa escolha narrativa - porque sim, é uma escolha - também dialoga, conscientemente ou não, com um contexto sociopolítico mais amplo. Nos anos 1990, enquanto o neoliberalismo moldava políticas educacionais com foco em desempenho e rankings — o que reduzia a escola a um espaço de avaliação e disciplina —, a série transforma o colégio em palco dessas mesmas dinâmicas, travestidas de fantasia. Professores como Snape e Umbridge encarnam modelos distintos de autoritarismo, mas ambos legitimam a opressão em nome da ordem ou da excelência. Em contraste, uma leitura freireana questionaria justamente essa lógica bancária de educação — na qual o professor deposita saber e o aluno deve apenas absorver. A ausência de diálogo, a punição simbólica e o descaso com o sofrimento estudantil (como o de Neville ou os castigos físicos impostos por Umbridge) revelam não apenas um problema ético, mas uma posição política: a crença de que a escola serve para moldar e submeter, não para libertar. Assim, a saga de Rowling se torna, inadvertidamente, um espelho das contradições de seu tempo — entre o discurso de formação moral e as práticas que perpetuam exclusão e violência simbólica.

É fundamental compreender que nenhuma obra de ficção existe fora de sua própria temporalidade. Mesmo quando ambientada em universos paralelos, passados imaginários ou sistemas mágicos, toda narrativa reflete os valores, tensões e contradições do tempo histórico em que foi concebida. "Harry Potter", portanto, não pode ser interpretado como um retrato inocente de uma “época antiga” ou de uma tradição escolar distante, pois sua escrita e publicação — entre o final dos anos 1990 e o início dos 2000 — dialogam diretamente com o contexto cultural e pedagógico desse período. A tentativa de deslocar a responsabilidade crítica sob o argumento de que a obra “retrata outro tempo” ignora o fato de que o olhar da autora é o de uma mulher britânica contemporânea, formada por debates e disputas éticas próprios de seu tempo histórico. Assim, ainda que Hogwarts seja objetivamente uma escola que remonta os tempos medievais em sua aparência, e que pareça uma escola vitoriana transplantada para o século XX, ela carrega e reproduz valores educacionais e morais que eram, e em muitos aspectos ainda são, amplamente normalizados pela sociedade neoliberal moderna.

Essa perspectiva desarma qualquer leitura que tente isentar "Harry Potter" de crítica social sob o pretexto da fantasia ou da tradição. Ao contrário, a série funciona como um registro ideológico de seu momento: um tempo em que o autoritarismo escolar e o bullying ainda eram vistos como “parte do crescimento”, e em que o sucesso individual era constantemente colocado acima da solidariedade coletiva. Ao projetar esses valores num universo mágico, Rowling não apenas os perpetua, mas os naturaliza — o que reforça a importância de ler a obra em diálogo com sua contemporaneidade, reconhecendo que a ficção, mesmo quando mágica, nunca está fora do mundo real que a produz.

Mesmo construindo um ambiente institucional desastroso, Rowling demonstra consciência de temas sociais que estavam em debate na sua contemporaneidade. Um exemplo claro é quando Hermione, cuja postura reflete pautas sobre preconceito, igualdade e direitos de seres oprimidos, tanto em sua própria condição como aluna nascida-trouxa, quanto no caso dos elfos domésticos e da campanha pelo “F.A.L.E” (Fundo de Apoio à Liberação do Elfo). Esses episódios mostram que a autora estava atenta a discussões sobre justiça social e inclusão — debates que, nos anos 1990 e 2000, ganhavam cada vez mais relevância em ambientes acadêmicos e escolares ao redor do mundo.

No entanto, quando analisamos a obra retrospectivamente, fica evidente que essas iniciativas são marginais e recebem pouca ou quase nenhuma adesão no universo da narrativa. A campanha de Hermione é ridicularizada pelos colegas e professores; nenhuma mudança institucional significativa ocorre; o preconceito estrutural e a opressão permanecem intactos. Esse contraste evidencia a força da visão pedagógica que domina Hogwarts: uma escola onde a autoridade é absoluta, a humilhação é normalizada e a justiça social é ignorada, mesmo quando explicitamente apresentada como ideal. Assim, a tentativa de Rowling de introduzir temas contemporâneos — justiça, igualdade, crítica a opressão — acaba reforçando a leitura de que Hogwarts funciona como um ambiente onde a negligência institucional e o autoritarismo são normalizados, independentemente do contexto histórico ou do posicionamento moral dos personagens.

Para concluir... acredito que eu tenha demonstrado suficientemente, ao longo desse texto, que a Hogwarts de J.K. Rowling não é mero cenário de um Universo mágico denso para aventura fantasiosas; é uma instituição pedagógica profundamente falha, onde autoritarismo, humilhação e negligência são naturalizados e celebrados como parte da formação moral dos alunos. A saga de Rowling nos apresenta professores abusivos, colegas cruéis e um sistema que ignora o sofrimento dos estudantes mais vulneráveis, como Neville, ao mesmo tempo em que permite que tentativas de justiça social, como as de Hermione, sejam apresentadas, mas permaneçam marginais e quase irrelevantes. Essa dinâmica não é fruto do acaso ou de uma estética antiquada, mas sim de escolhas narrativas conscientes que refletem, de forma muitas vezes contraditória, a visão da autora sobre educação e autoridade. Longe de existir fora de seu tempo, a obra passa muito tangencialmente - quando não menospreza - debates pedagógicos e sociais dos anos 1990 e 2000, revelando que mesmo em um universo mágico, práticas de exclusão, violência simbólica e negligência institucional permanecem perigosamente plausíveis — e que, ao final, a lição mais clara de Hogwarts talvez seja a necessidade de questionar sistemas de poder que se apresentam como naturais e incontestáveis. 

Hogwarts pode ser mágica, mas sob seu véu de encanto e aventura, a escola ensina que sofrimento, humilhação e medo são caminhos aceitáveis para formar uma criança — e isso é algo que, fora da ficção, ninguém deveria aceitar. Portanto, nos dias de hoje, sigo gostando - muito criticamente - da saga, mas sendo bem sincero, eu não recomendaria a leitura de Harry Potter hoje em dia sem muitas ressalvas.

 

domingo, 27 de abril de 2025

Sobre a publicação ilegal de Urusei Yatsura...

Pensei bastante sobre a questão da publicação ilegal de Urusei Yatsura. 
Cheguei a dizer, em conversas com amigos, que o dono da editora havia sido muito imbecil ao fazer isso. Mas acho válido refletir melhor, de forma racional, para entender as razões que levam a esse tipo de situação.
Ou alguém realmente acredita que isso aconteceria se o mercado brasileiro de quadrinhos e mangás não fosse tão excludente?

Longe de mim defender acriticamente a publicação de obras piratas no Brasil, seja de livros ou quadrinhos. Legalmente, a linha é bastante tênue entre o desejo de disponibilizar uma obra para o público e o desrespeito às normas que regem o licenciamento.



O dono da editora que publicou Urusei Yatsura está errado?


Legalmente falando, obviamente está.

Entretanto, jamais me verão dizendo que ele foi, nossa, “um estúpido” — ou, pior, caguetando para a editora japonesa. No máximo, foi ingênuo ao acreditar que poderia publicar o mangá sem licença e sair ileso — o que, acredito, não acontecerá.


O Brasil se lambuza em pirataria, e isso é uma idiossincrasia nacional: todos nós crescemos em um lugar onde consumir ou até comprar produtos piratas faz parte do nosso DNA cultural. Se isso é bom ou ruim, é outro debate, mas estes são os fatos. 

Apesar de sermos, proporcionalmente, o maior mercado da América Latina para os japoneses — e, diga-se, para qualquer outro país que licencie obras em quadrinhos — seguimos sendo periferia do capitalismo, e nunca devemos esquecer isso. O poder de compra do brasileiro para livros e revistas é, via de regra, extremamente limitado.


Em um mundo onde um colecionável da Pipoca & Nanquim (e digo colecionável mais do que quadrinho ou mangá, porque é assim que eles vendem) pode custar facilmente mais de 200 reais, atos de paixão e tolice merecem algum nível de compreensão (compreensão, não leniência) por parte do público — nós, que estamos à mercê de editoras como Panini e JBC, que, de certa forma, monopolizam o acesso e estipulam preços muito altos sabendo que seu público, ainda assim, tentará acompanhar.

E não tentemos aqui nos grudar a um moralismo barato do tipo "ah, mas e o autor original?".


Sabemos que, mesmo com a obra licenciada, a maior parte dos lucros permanece com as editoras — pouquíssimo de fato vai para os autores. Alguns poucos conseguem se tornar muito ricos, como Toriyama e Kurumada, mas são exceções raríssimas.
Enquanto o mercado brasileiro de mangás, quadrinhos e afins for regido por lógicas excludentes, casos como o de Urusei Yatsura continuarão a surgir — não como atos de maldade, mas como sintomas de um sistema doente. A pergunta que fica é: estamos dispostos a pressionar por mudanças estruturais ou vamos seguir fingindo que o problema mora apenas na ‘burrice’ de um editor pirateiro?

Não sejamos hipócritas: nós amamos o pecado. Só detestamos o pecador.

sexta-feira, 21 de junho de 2024

Mônaco-1984: uma vitória tirada de Senna? Reflexões sobre responsabilidade e segurança no esporte a motor

Faz tempo que não escrevo nesse blog, e sinceramente não sinto saudades de fazê-lo. O tempo é curto, o dinheiro não vai se ganhar sozinho e o fato é que eu estou, há muito tempo, sem tanta inspiração para a escrita. 

Jamais eu teria encontrado
isso aqui na Amazon, hoje
responsável por praticamente
destruir o comércio nacional de livros

Este blog começou como um lugar onde eu escrevia exclusivamente sobre automobilismo. E jamais voltará a ser assim. Pois o mundo mudou, e eu mudei com ele. O automobilismo era, para mim, um hiperfoco gigantesco. Para quem me conhece, sou autista nível 1 de suporte. Para pessoas como nós, é muito fácil cair em hiperfocos que tomam literalmente todo o nosso tempo e dominam a nossa mente de tal forma que só queremos saber daquilo. Hiperfoco, aliás, que foi muito forte em minha infância e adolescência quando se trata de automobilismo, em especial, a Fórmula 1. Na foto ao lado, um anuário que encontrei recentemente, que deu uma reacendida em meu hiperfoco nos últimos dias. Felizmente, de uma maneira bem menos destrutiva para mim do que havia sido em meu período mais infante.

Mas enfim, isso tudo é uma grande embromação pra tornar o texto um pouquinho maior, e fazer as pessoas ficarem um pouco mais de tempo neste espaço. 

Brincadeira. Ou não. Risos.

Ao assunto do título, pois.



O Grande Prêmio de Mônaco de 1984 entrou para a história do automobilismo.

E não é para menos. É uma corrida absolutamente histórica, que apresentou ao mundo dois talentos gigantescos, duas promessas do que seria a Fórmula 1 na segunda metade dos anos 80 em diante.

Ayrton Senna e Stefan Bellof, naquela tarde diluvial, apresentaram seus cartões de visitas ao mundo, e vinham demolindo meio grid rumo à liderança do Grand Prix. O mundo estava boquiaberto ao ver como Senna, no molhado, ao volante da relativamente modesta Toleman (já falarei sobre este "relativamente"), vinha jambrolhando o grid, com direito a uma ultrapassagem por fora na entrada da Saint Devote sobre Niki Lauda. Bellof, por sua vez, vinha também fazendo corrida brilhante, e era o carro mais veloz da pista quando a prova foi encerrada. 

Falarei isso baixinho aqui pra vocês... mais rápido que Ayrton, inclusive.

Cabe dizer que o carro de Senna podia não ser nenhuma brastemp, mas foi projetado por ninguém menos que Rory Byrne e Pat Symonds. Byrne se consagrou com as Ferrari de Michael Schumacher anos depois, e Symonds se tornou o projetista responsável pelas Renault dos dois títulos de Fernando Alonso. Além disso, era empurrado pelo motor Hart 415T, que, de acordo com o blog britânico Stavtech nesse texto aqui, em 1984 poderia chegar a 800 cavalos, o que não era um déficit tão grande se comparado a outros times da época.

Quando a corrida se aproximava das voltas 30 a 31, Alain Prost, da McLaren-TAG Porsche, que havia largado da pole, acenava aos boxes, solicitando à direção de prova que a corrida fosse encerrada, pois em sua visão, não havia condições para continuar. O diretor de prova, Jacky Ickx, encerrou a contenda no 31º giro. Ao encerrar a prova em bandeira vermelha, valiam os resultados da volta anterior, e por isso, a vitória ficou com Prost, com Senna em segundo e Bellof em terceiro (depois, o alemão seria desclassificado, pois as Tyrrell estavam abaixo do peso). Resultado que, por ironia do destino, fez Prost perder o campeonato mundial para Lauda por meio ponto. Risos.


A impressão geral que ficou deste resultado foi de certa revolta passivo-agressiva em relação a esse desfecho, com requintes de teoria da conspiração e meias-verdades que deram tônus muscular à tese de que o regulamento teria sido ma
nipulado para dar a vitória a Prost, McLaren e Porsche (a fornecedora de motores do carro do francês). E quando você junta todos estes fatores, tudo faz muito sentido. Ora, Jacky Ickx era um piloto histórico da marca alemã no Mundial de Endurance, tendo vencido as 24 Horas de Le Mans seis vezes, quatro delas pilotando carros históricos da esquadra de Stuttgart, como o 936 e o 956. A McLaren era já estabelecida como um time tradicional na Fórmula 1, com títulos de Emerson Fittipaldi e James Hunt em anos anteriores. Prost era francês, sendo Mônaco um principado que ficava muito próximo do território francês. E, claro, havia Jean-Marie Balestre, o protótipo de ditador, que tinha relação extremamente próxima do piloto da McLaren, e que nos anos seguintes, seria o carrasco da decisão de 1989 que favoreceu o tricampeonato de Prost após a batida proposital em Senna. E não ajudou o fato de que em 1996, Balestre ter declarado à imprensa que teria dado uma "ajudinha" para Prost levar o caneco na disputa contra o brasileiro.

Tudo isso deixou o imaginário popular brasileiro muito suscetível à ideia de que Ayrton Senna deveria ter sete vitórias no GP de Mônaco, e não teve porque a cartolagem na categoria jogou a favor de Prost.

Mas será que foi realmente isso? Será mesmo que todos estes fatores esgotam o assunto?

Em minha visão, não. E esta é a razão de esse texto existir.

Em primeiro lugar, uma pequena nota de rodapé no meio do texto, pois quero tirar o meu da reta. Não sou um "hater" de Ayrton Senna. Admiro o legado do brasileiro, um dos maiores e melhores pilotos de todos os tempos, possuo e li algumas das MUITAS biografias já produzidas sobre Ayrton. Mas, definitivamente, não sou um passador de pano, e acredito sim que o brasileiro foi um piloto falível, eventualmente um piloto sujo na pista. Sim, para mim, a batida com Prost em 1990 foi culpa dele e eu não dou viés de validação a essa batida por ser uma vingança pessoal pela farofada do ano anterior. Cada um com sua consciência, a minha está limpíssima. Não levo revanchismos às últimas consequências como muitos fãs brasileiros fazem, tais como aqueles que adoram deixar mensagens carinhosas nas redes sociais, como "Michael Schumacher está pagando em vida o mal que fez nas pistas da Fórmula 1". Sem mais comentários, esse trecho do texto ficou bem maior do que deveria.

Voltando ao tema do texto.

Não acho que o desfecho da prova de Mônaco foi uma injustiça contra Senna e uma grande conspiração para favorecer Prost. Por alguns motivos, os quais elencarei adiante.

De fato, a chuva que caía em Monte Carlo aquele dia era intensa. Tão intensa que o início da prova foi atrasado em 45 minutos. Alguns pilotos já haviam sofrido acidentes àquela altura do Grand Prix, incluindo um acidente na largada que sacou do campo as duas Renault, de Patrick Tambay e Derek Warwick. Ambos saíram machucados: Tambay quebrou uma perna, e Warwick saiu com escoriações na perna direita, num acidente que também envolveu Andrea de Cesaris e François Hesnault, ambos da Ligier. Nigel Mansell, que chegou a liderar, espatifou sua Lotus no guard-rail na subida após a Saint Devote, e depois na entrada da Mirabeau. E houve outros acidentes envolvendo outros pilotos, como Niki Lauda e do próprio Ayrton Senna, que danificou sua suspensão dianteira direita em uma batida, e ignorou ordens de equipe para não utilizar as zebras dali em diante, deteriorando cada vez mais a suspensão de sua TG184. 

Como afirma o insuspeito jornalista Luis Fernando Ramos neste texto aqui, a chuva, que já era enorme no começo da corrida, se intensificou da volta 20 em diante, e nas voltas anteriores à interrupção, os pilotos já registravam tempos cerca de cinco segundos mais lentos do que já haviam registrado anteriormente. A corrida, de fato, estava perigosa. Inclusive, o carro de Senna corria sério risco de se desmanchar devido a este dano na suspensão em poucas voltas se a corrida não fosse encerrada. Ramos, inclusive, se pergunta no texto acima linkado, o que poderia ter acontecido se o carro de Senna tivesse se desmanchado, por exemplo, na saída do Túnel, citando o gravíssimo acidente de Karl Wendlinger na mesma pista, dez anos depois. Do ponto de vista da segurança, a decisão de Jacky Ickx, como se pode ver, foi absolutamente acertada.

Já a desistência de Alain Prost e suas solicitações efusivas para encerrar a prova? Será que era mesmo só porque queria vencer? Deixo isso para a interpretação do leitor, mas vou elaborar uma digressão no texto para comentar um pouco sobre questões de segurança no automobilismo. 


A princípio, cabe dizer o seguinte: Jo Ramirez, coordenador da McLaren, teria confirmado que Prost vinha sofrendo com problemas em seus freios dianteiros, e estava utilizando apenas os freios traseiros e freio-motor (ou seja, freando o carro utilizando os giros do motor para controlar a velocidade). Em pista seca isso já seria um problema. Em chuva, logicamente ainda mais perigoso. E aqui vou apenas - APENAS - supor que Prost estava informado via rádio acerca do acidente grave envolvendo Warwick e Tambay na primeira volta. Fora os outros acidentes que haviam ocorrido no decorrer da disputa.

Mas cabe também falar sobre outro aspecto relevante.

Alain Prost, àquela época, era um dos principais defensores da causa pela segurança no automobilismo. Os anos 80 e a era Turbo haviam transformado os motores da Fórmula 1, que já eram rápidos, em verdadeiros monstros de desempenho. Mas isso também trouxe sérios impactos na segurança. Mesmo com relativamente menos potência, os anos 70 também haviam sido marcados por acidentes assustadores resultando em morte, como os de Roger Williamson, Ronnie Peterson e Rolf Stommelen, e o famoso acidente em 1976 com Niki Lauda no Nurburgring-Nordschleife, que quase tirou a vida do austríaco e deixou seu rosto irreconhecível.

Os GPs de Mônaco nos anos anteriores vinham sendo corridas especialmente esquisitas no quesito segurança. A edição de 1982 da corrida no principado, aliás, ocorreu logo depois do GP da Bélgica que havia vitimado Gilles Villeneuve de maneira assustadora. E também foi uma corrida de acidentes estranhos. O próprio Prost bateu na saída da Chicane do Porto, num acidente que desmanchou o bólido e teve pneu voando pela pista. Poucos meses depois, o GP da Alemanha de 1982 teve o gravíssimo acidente entre Prost e Didier Pironi, da Ferrari, no qual Pironi encheu a traseira da Renault com força e  capotou algumas vezes antes do carro parar. Não há imagens do acidente, mas o fato é que Pironi ficou preso no carro por bastante tempo antes de ser resgatado. Nelson Piquet, que o socorreu, foi quem retirou o cinto e o capacete de Pironi, e ficou chocado ao ver a imagem angustiante do piloto, que sangrava muito e teve confirmadas sérias lesões em suas duas pernas. O acidente encerrou ali mesmo a carreira de Pironi na Fórmula 1. Importante lembrar, também, que no mesmo ano, morreu Riccardo Paletti no GP do Canadá de 1982, em outro acidente violento. 

É possível dizer que Prost tenha sofrido um transtorno de estresse pós-traumático após todos esses acidentes? Não cheguei a encontrar nenhuma fonte oficial confirmando, mas há evidências de que sim. Inclusive, de posse de tais informações, torna-se compreensível o motivo de Alain ser um dos pilotos que mais tinham dificuldade em condições de pista molhada, que inclusive o tornavam presa fácil em certas corridas históricas disputadas sob chuva nos anos seguintes, como o GP da Inglaterra de 1988 e o GP de San Marino de 1991. Este último, aliás, marcado pela infame rodada de Prost ainda na volta de aquecimento de pneus. Hoje, costumamos achar as corridas sob chuva muito divertidas, pela quantidade de caos e imprevisibilidade que normalmente elas trazem, mas o fato é que correr sob chuva é e sempre foi um grande desafio para a Fórmula 1 em termos de segurança.

Prevejo alguns comentários do tipo "ah, mas a Fórmula 1 sempre foi perigosa, o automobilismo sempre foi esporte de risco, então mortes fazem parte". 

E é verdade, o automobilismo é perigoso pela própria natureza do esporte: pilotos correm uns contra os outros em carros de altíssima velocidade, podendo se estatelar no muro a qualquer momento. Mas as mortes são sempre traumáticas quando acontecem, e põem o esporte em tremendo questionamento sobre sua própria existência, de modo que mudanças em prol da segurança sempre foram necessárias a fim de evitar ao máximo a possibilidade de qualquer acidente mais grave acontecer. Lembremos que o próprio Senna foi tirado de nós muito cedo devido a falhas de segurança. Portanto, nós, como fãs brasileiros, temos a obrigação de ser os primeiros a exigir corridas mais seguras.

Minha conclusão, depois de tudo, é que o Grande Prêmio de Mônaco de 1984 não foi "tirado de Senna". Ele foi interrompido corretamente, sustentado por evidências de que a corrida estava perigosa demais para continuar, em uma categoria já traumatizada por três acidentes assustadores nos anos anteriores, com direito a duas violentas mortes. Seus principais pilotos, como Alain Prost e Nelson Piquet, advogavam por mais segurança nas corridas. Mortes nunca foram admissíveis, mas nessa época, elas definitivamente começaram a se tornar intoleráveis. Ainda bem!

E para a pachecada que adora uma teoria da conspiração, fica a sugestão de reflexão, pois além de tudo que foi apresentado acima, também temos indícios suficientes para concluir que, caso a corrida continuasse, o vencedor poderia muito bem não ter sido o brasileiro àquela tarde.

Haverá quem leia esse texto e siga firme na tese conspiratória? Claro que haverá.

Por mim, sigo cá com minha consciência tranquila.



quinta-feira, 3 de novembro de 2022

"O HOMEM INVISÍVEL" (2020) - RESENHA CRÍTICA




A linguagem do cinema é extremamente multifacetada. É uma forma de arte capaz de despertar no público as mais diversas sensações, atribuir significados através da mera combinação de imagens e sons e literalmente produzir alegria, serenidade, angústia, tristeza... e medo. O medo é um dos sentimentos mais poderosos que um longa pode causar, pois ele literalmente dribla a limitação estabelecida pela tela (a tal da quarta parede) e atinge diretamente o espectador. É muito fácil sentir coisas como felicidade, tranquilidade e humor enquanto se vê um filme. Mas quando se está protegido pela tela, apenas um projeto muito bom e que sabe o que está fazendo pode fazer você sentir o MEDO propriamente dito.

Há muitas formas de um terror fazer isso. Seja apelando a medos alegóricos (figuras naturalmente bizarras, como palhaços, ou os serial killers dos "slashers") ou a assombrações e coisas relativas ao espiritual, não há muito mistério, não à toa esse tipo de projeto é extremamente popular no terror, sendo inclusive temas muito recorrentes nas produções do gênero. Mas o melhor tipo, a meu juízo, é aquele tipo de terror que busca explorar as ansiedades mais reais e palpáveis, como o fato de não conhecermos de verdade as pessoas de quem nos aproximamos, ou literalmente lidar com um stalker (perseguidor). É por isso, por exemplo, que obras como "Psicose" e "Halloween - A Noite do Terror", funcionam tão bem até os dias de hoje, mesmo tendo sobre eles a implacável ação do tempo. Acredito que não haja terror mais eficiente do que aquele que reproduz, em alguma escala, seus medos mais íntimos, que toca em suas feridas mais abertas e se aproveita da sua maior vulnerabilidade. 

E é neste quadro que se localiza "O Homem Invisível", que comentarei a seguir. Lançado em 2020, é uma adaptação do livro homônimo publicado em 1897 pelo autor H.G. Wells, que por sua vez é um clássico da ficção científica. do qual também se originou o clássico filme de 1933. O filme é escrito e dirigido por Leigh Whannell (roteirista de "Jogos Mortais") e estrela Elisabeth Moss, Aldis Hodge, Oliver Jackson-Cohen e Storm Reid. Na trama, Olsen vive Cecilia, uma mulher que foge de seu marido, Adrian (Jackson-Cohen), um cientista pioneiro em ótica, após viver um relacionamento profundamente abusivo nas mãos dele. Logo depois, Adrian supostamente morre, mas coisas estranhas começam a acontecer com Cecília e ela passa a duvidar da morte de Adrian, suspeitar que de alguma forma ele tenha ficado invisível e a questionar sua própria sanidade.

A direção de Whannell é muito eficiente na construção da tensão desde o começo, na casa mostrando como a protagonista se encontra isolada e sempre alerta, indicando que mesmo na aparente quietude, ela está em perigo. O primeiro ato é muito eficaz em estabelecer a situação na qual o filme se desenvolve, com planos longos e bem abertos que deixam claro que o ambiente onde ela vive é extremamente opressor. Há também um contraste entre essas cenas e alguns momentos mais leves entre Cecília, sua irmã e seus amigos, que serve para gerar identificação do público com esses personagens (são muito bons, exceção apenas para a irmã). O ritmo permanece cadenciado até o segundo ato, o que é ótimo, pois vemos uma quantidade cada vez mais bizarra de coisas acontecendo e sentindo a angústia da protagonista, que vai cada vez mais sendo boicotada, privada de sua vida social e literalmente sendo tida como louca (o famoso gaslighting). Tudo isso é muito crível e você se coloca no lugar de Cecília sem muita dificuldade. 

O roteiro é extremamente eficaz em explorar toda a verossimilhança da situação vivida pela protagonista e fundi-la isso com o aspecto da ficção científica. E traz um importante comentário social:  isolamento experimentado pela personagem de Moss não é nada muito diferente do isolamento que muitas pessoas vítimas de relacionamentos tóxicos, em sua maioria mulheres, viveram ou vivem na vida real. A mistura produz um clima de tensão, angústia e paranoia crescentes. O filme, porém, não é perfeito neste aspecto: há uma quebra de ritmo muito evidente do segundo para o terceiro ato, no qual o projeto abandona o ótimo clima de tensão e suspense estabelecidos para dar lugar a uma ação mais direta, com a protagonista finalmente tomando uma atitude sobre tudo o que está vivendo. Eu não exatamente gosto disso, mas acho que funciona para o grande esquema das coisas aqui. 

Gosto, em algum nível, da ironia do filme em mostrar a personagem de Moss tendo que falar coisas como "ele está aqui conosco" ou "foi ele, não eu" em situações que desafiam a lógica e o ceticismo dos outros personagens, numa vibe parecida com a do Andy Barclay em "Brinquedo Assassino". Há certas semelhanças entre os dois projetos, não há como não notar.

Mas nada disso seria possível sem a presença inigualável da atriz Elisabeth Moss. Não, sério, não seria absurdo se todo o trecho sobre atuação desta resenha fosse só sobre ela. Todas as circunstâncias aqui inscritas perpassam sua atuação, que é nada menos do que brilhante. Ela consegue carregar consigo muita verdade e verossimilhança em relação a tudo o que sua personagem passa, todo o pânico e a agorafobia que ela sente, de maneira brilhante. Como o vilão passa o tempo quase todo na invisibilidade, ela precisa fazer muita atuação corporal sozinha, e dá um verdadeiro show. É importante também ressaltar que sua personagem não é o típico estereótipo do protagonista burro de filme de terror: Cecília é esperta, descobre as coisas que precisa descobrir numa progressão lógica e verossímil, o que é sempre muito bem-vindo, e sabe o que precisa fazer para sobreviver aos perigos mais imediatos quando estes se apresentam. No elenco de apoio, Aldis Hodge está muito bem e Oliver Jackson-Cohen nem faz tanta coisa assim durante o filme, mas cumpre um papel importante de maneira bem eficaz no ato final.

Tenho também que dar um destaque ENORME para o design de som e a trilha sonora de Benjamin Wallfisch. O som do filme nas cenas de tensão faz até mesmo cada passo dado pelos personagens parecer perigoso, e dadas as características especiais do vilão, cada mínimo barulho pode ser indicativo de um perigo à espreita. Diante deste quadro, o uso inteligente e minimalista da trilha sonora se faz necessário, e de fato isso é feito. Não há aqui a típica boba pontuação de jumpscares a partir dos acordes de trilha: isto dá lugar ao silêncio quase absoluto, porém muito mais efetivo, quase torturante. Nas cenas mais de ação, há o uso de uma trilha meio bizarra, com notas estridentes, e um pouco mais agitada, porém apropriada.

No fim, "O Homem Invisível" é um ótimo terror de ficção científica com um comentário social muito pertinente sobre relacionamentos abusivos, que me conquistou pela direção eficiente e pelo trabalho maravilhoso da atriz principal. Brilhante trabalho de atualização do clássico que lhe deu origem.

Nota: 9,0


segunda-feira, 31 de outubro de 2022

X-MEN 3: O CONFRONTO FINAL (2006) - RESENHA CRÍTICA


Escrevo esta resenha crítica em meio ao dia mais importante da história política recente do país e eufórico após uma vitória política para mim e alguns de meus chegados, o que é no mínimo inusitado. Comemorar enquanto escreve um texto sobre um filme? Bom, cada um tem sua forma de aproveitar um momento e esse talvez seja o meu.

Isso, obviamente, não salvará "X-Men 3" de levar uma boa surra, pois vou adiantar logo, este filme é ruim pra cacete e eu me envergonho de um dia ter dito para alguém que gostava dele. Sim, eu gostava muito pelos idos de 2014. Mas nos últimos anos eu acabei desenvolvendo um olhar um pouquinho mais sofisticado para cinema, capaz de entender textos com mais nuances narrativas.

Mas antes de começar a falar mal desse filme, acho que é justo compartilhar aqui a minha opinião num geral sobre os X-Men como grupo de heróis e a franquia X-Men no cinema até antes desse projeto ser lançado. Eu goto bastante desta super-equipe e de como ela sempre teve um papel de vanguarda no que diz respeito a discussões políticas neste ambiente de cultura pop e quadrinhos, e eu gosto muito mais e me identifico com eles do que, por exemplo, os Vingadores, que se tornaram muito famosos nos últimos dez anos. Não à toa, depois do Homem-Aranha, o meu personagem favorito da Marvel Comics é o Magneto, que é um excelente personagem e que muitas vezes transcende o papel vilanesco atribuído a ele, tanto nos gibis quanto nos filmes.

"X-Men" foi um baita de um filme, que praticamente inaugurou o grande esquema das coisas no que diz respeito a blockbusters de super-heróis, reunindo um elenco de altíssimo peso e consagrando Hugh Jackman como um dos grandes astros do cinema blockbuster desde então. OK, tecnicamente falando, "Blade" (1998) foi o longa que oficialmente começou a parada toda, mas não há como ignorar que o diretor Bryan Singer estabeleceu um parâmetro para o cinema de franquia de super-heróis, que por sua vez foi posteriormente lapidado por gente Kevin Feige no Universo Cinematográfico da Marvel. Feige, aliás, é produtor de praticamente todos os filmes com personagens Marvel desde "Blade". X-Men 2, por sua vez, é uma continuação sólida que não apenas dá continuidade ao primeiro de maneira satisfatória, mas também expande a discussão sobre tolerância e respeito às diferenças de maneiras até bem pertinentes. E é uma boa adaptação do quadrinho "Deus ama, o Homem mata", de Chris Claremont. E posso dizer que o visual do Magneto nessa trilogia é o meu favorito de todas as representações do personagem em qualquer mídia: elegante, poderoso, um verdadeiro lorde nas ações e nos trejeitos do ator, Ian McKellen, que transborda carisma.

Já o filme sobre o qual falaremos... bem, ele tem uma produção complicada. O diretor Bryan Singer se ausentou do projeto para dirigir "Superman - O Retorno" e deixou a batata assando nas mãos de Brett Ratner, um diretor bem questionável, mas que fez um trabalho até decente em filmes como "Red Dragon" de 2002 e a franquia "A Hora do Rush" (até o segundo filme), mas também produziu a BOMBA chamada "Dragon Ball Evolution". E bem, importante mencionar que depois ele foi acusado de assédio sexual por pelo menos duas atrizes. Portanto, é importante frisar que estamos aqui falando de um vagabundo oportunista e criminoso sexual.

A trama é a seguinte: Magneto está à solta após os eventos de X-Men 2 e continua empenhado em criar um exército de mutantes para dar um sacode na humanidade. O governo dos EUA encontra um garoto capaz de anular e suprimir os poderes dos mutantes e o utiliza para criar uma cura, contra a qual Magneto e seu secto busca se opor. Jean Grey reaparece como a entidade da Força Fênix e se torna uma ameaça para mutantes e humanos, e Wolverine enfrenta um dilema emocional entre o amor que sente por Jean e o provável desfecho no qual ela talvez deva morrer. O cientista responsável pela cura é pai de um mutante que acaba se tornando o Anjo (personagem da equipe original dos X-Men de 1963) e os dois possuem uma rusga mal resolvida, na qual o pai quer suprimir seus poderes, mas o filho quer viver sua própria vida abraçando esses poderes (uma alusão nada sutil a gays saindo do armário, o que não é nada ruim no mérito, mas é bem descompensado na forma). 

Logo de cara, importante notar que o filme é ABARROTADO de tramas e subtramas. Trama demais é sintoma de quê? Isso mesmo, roteiro mal escrito. Muita coisa acontece a todo momento e o roteiro corre demais durante todo o tempo da projeção, eliminando completamente a amplitude dramática. Algumas das tramas são praticamente desligadas do grande esquema do roteiro e não fariam falta alguma se fossem retiradas, é o caso do arco do Anjo e o da Vampira, o que é profundamente lamentável. A direção de Ratner é incompetente e não consegue atribuir nenhuma amplitude dramática a nenhuma das tramas que tenta desenvolver. O material desta sequência já não é muito bom e o diretor não ajuda, desperdiçando MUITO o potencial do elenco que tinha à mão, quase como se ele estivesse fazendo o filme nas coxas e sem muita paciência para dirigir atores. A prova disso é que temos personagem descaracterizado, peronagem subaproveitado, personagem jogado para debaixo do tapete sem mais nem menos... Porra, cadê o Noturno? Ele foi uma das melhores adições à franquia em X-Men 2, com cenas de ação excelentes e um arco dramático convincente... por quê? E aí colocaram no lugar um Múltiplo (Eric Dane) que não fede nem cheira e um cosplay mal-feito do Fanático (Vinnie Jones). O "confronto final" que dá nome ao título do filme é completamente insosso e sem emoção alguma.

As atuações são o que tornam esse projeto suportável de assistir até o fim. O elenco faz o que pode com o que tem em mãos. Hugh Jackman e Halle Berry estão bem, James Marsden está OK e Famke Jamsen faz o que pode com o péssimo script de Jean Grey/Fênix que ela recebe para atuar. E claro, o carisma e personalidade de Patrick Stewart (Professor Charles Xavier) e Ian McKellen (Erik Lehnsherr/Magneto), que são dois atores tão fodásticos que conseguem ter uma baita presença. Embora o personagem de Magneto seja completamente descaracterizado nesta sequência em uma cena tão ruim que me deu câncer, onde ele deixa uma aliada (Mística) para trás sem mais nem menos, LITERALMENTE após ela salvar sua vida, apenas porque ela perdeu os poderes mutantes, o que é um completo desserviço ao personagem de McKellen. É simplesmente terrível de tão ruim, e a Mística some completamente do filme, aparecendo depois praticamente apenas como uma nota de rodapé muito safada que o filme usa só para dizer que não a esqueceu. Uma boa adição aqui é a personagem da Kitty Pride (da ótima Ellen Page, que havia feito MeninaMá.com e que hoje é um homem transgênero, tendo mudado o nome para Elliot), que faz um bom papel como a Lince Negra.

Aliás, vale destacar um período específico para a Vampira: é inacreditável o potencial desperdiçado da personagem de Anna Paquin durante toda a franquia, que é uma crítica recorrente entre os fãs e a própria atriz sempre se sentiu incomodada. A personagem nunca teve uma agência muito preponderante nos filmes de Singer, mas parece que Brett Ratner odeia de verdade essa personagem. Ela tem todo um dilema pessoal com a questão da cura mutante e o filme pinta isso como algo relevante, mas ela DESAPARECE do filme no terceiro ato e aparece depois de tudo resolvido, apenas como nota de rodapé, ao mesmo estilo da Mística. Eu lamento profundamente que esse tenha sido praticamente a última vez de Vampira no cinema. Paquin fez uma participação em X-Men: Dias de um Futuro Esquecido, que foi cortada da versão que foi para o cinema).

Não tenho mais nada pra dizer, esse filme é uma zona de tão ruim e só não é o pior da franquia original porque "X-Men Origens: Wolverine" existe. 

Nota: 3,0