quinta-feira, 2 de abril de 2026

MISOGINIA, MISANDRIA E A RELATIVIZAÇÃO DA OPRESSÃO

Em tempos de conflitos sociais e políticos cada vez mais ruidosos, a internet faz surgir alguns fenômenos particularmente curiosos. A atual discussão sobre misoginia, impulsionada pelos números cada vez maiores de feminicídio, tem feito ressurgir uma conversa sobre o que seria, supostamente, a justaposição a misoginia: a misandria. Isto parece surgir como uma tentativa de falsa equivalência entre fenômenos. Discorrerei melhor a seguir.

Comecemos com uma definição de conceitos: misoginia é caracterizada pelo ódio, desprezo, aversão ou preconceito extremo direcionado a mulheres, normalmente manifestado por comportamentos que objetificam, desvalorizam e violentam o feminino. Dito isso, movimentos masculinistas/redpill, apoiados por setores da imprensa, vão tentar trazer para o debate a contraparte semântica direta: misandria. A misandria, como se pode imaginar, seria o mesmo tipo de ódio da misoginia, só que direcionado a homens.

E aqui vou falar algumas coisas que podem irritar colegas de esquerda: sim, misandria existe. Não é um conceito teórico, apenas: é um fenômeno social que existe e que normalmente incorre no ressentimento masculino a médio e longo prazo.

No entanto, o uso do termo misandria neste momento não é inocente. Não é uma tentativa de equiparação baseada apenas em uma preocupação honesta com homens que eventualmente possam sofrer nas mãos de mulheres. É uma tentativa clara de recuperar terreno no debate.

A lei da misoginia (PL 896/2023), aprovada na semana passada, prevê a criminalização de discursos de ódio a mulheres, entendendo que a misoginia é equiparável ao crime de racismo. A tentativa de equiparação com a misandria, portanto, não ocorre em um vácuo: ela encomendada por setores muito poderosos. Não podemos esquecer que a Folha de S. Paulo, entre outros jornalões, são propriedade de famílias com poder político e econômico construído, entre outras coisas, nas bases do patriarcado.

A lei da misoginia põe em evidência o conflito de gênero do ponto de vista do lado oprimido, pois coloca em questionamento a própria estrutura do patriarcado no capitalismo. Ao tornar crime não apenas o discurso de ódio contra a mulher, mas também qualquer atitude que incorra em preconceito/menosprezo da mulher no mercado de trabalho, a lei tem potencial real de questionar a divisão social do trabalho vigente que favorece muito os homens em detrimento das mulheres. A burguesia sentiu este golpe.

E quando sente o golpe, a burguesia usa sua arma mais convencional: a imprensa. A Folha de S. Paulo pode tentar dizer que é neutra, porém defende os interesses da imprensa burguesa. Uma matéria como "Discurso de misandria, o ódio contra homens, cresce na internet" não me parece expor neutralidade. Não há uso aspas na manchete, muito menos atribuição de autoria. Ao publicar isto dessa forma, o jornal parece marcar posição clara de apoio à machosfera, mesmo que alegue "publicar várias visões". 

Contudo, o fato é que a misandria, embora exista no plano teórico e semântico e tenha suas representantes no continente da realidade, definitivamente não é um fenômeno estrutural. Não há movimentos misândricos organizados com poder social, político e institucional comparável. Não há "masculinicídio" (equivalente semântico do feminicídio, teoricamente). Não há uma estrutura social baseada na opressão de gênero que prejudique os homens sistematicamente. O que há são exceções que confirmam a regra.

O feminismo, por exemplo, não defende uma vingança baseada em gênero. Ai de nós, homens, se as feministas clamassem por vingança. Ele luta em favor de uma sociedade mais justa para mulheres e defende o fim da opressão de gênero. O ódio a homens, na verdade, muitas vezes vem dos próprios movimentos misóginos, sobretudo quando estes homens não performam a masculinidade dominante que eles tanto glorificam, com apelidos como "gado", "beta", "afeminado", etc. Ódio derivado da misoginia, por sinal.

Esta tentativa de equivalência entre os dois fenômenos devido a origem semântica, como falei, não é inocente, mas faz com que mesmo pessoas bem-intencionadas caiam neste discurso de equiparar. A misandria não se consolida como fenômeno estrutural nem sistemático. Não há comparação possível ao gravíssimo problema que a misoginia representa no Brasil atualmente. Os discursos misóginos estão alcançando níveis cada vez maiores na internet. Trends de violência contra mulheres crescem vertiginosamente.

Concluo este longo texto com um célere, curto manifesto aos meus colegas homens: não devemos dar moral a esta tentativa de equiparar misoginia a misandria. Apesar da semelhança semântica, não são fenômenos equiparáveis na sociedade em termos estatísticos. Se homens se sentem ameaçados pelo feminismo, deveriam rever seus próprios pensamentos e práticas. 

Ao contrário da misandria, que é elaboração semântica e fenômeno pontual, a misoginia é estrutural, real, urgente e está matando mulheres.