domingo, 22 de março de 2026

Resenha - FASHION BEAST - A Fera da Moda (Alan Moore & Malcolm McLaren)



Entendo patavinas de moda. Pra mim existe bonito, marromenos e feio. Tenho alguma sensibilidade para estética em vista do meu prévio trabalho como fotógrafo, mas as nuances mais complexas da moda nunca me foram muito familiares. Dito isso, foi com parcial ceticismo que adentrei a leitura de "Fashion Beast". Parcial, digo, porque, se pela parte da moda o quadrinho me nutriu alguma curiosidade mórbida, foi a autoria do roteiro que me chamou a atenção.

Afinal, Alan é Moore e dispensa apresentações: o lendário roteirista, tido como "o mago das histórias", sempre entregou narrativas, a seu modo, curiosas e chamativas, aliando enredos densos e cheios de crítica social a visuais atrativos e provocantes pela colaboração entre seus roteiros e a arte dos seus colaboradores. Suas maiores obras foram assim. De Piada Mortal a Watchmen, o roteirista quase sempre traz leituras dignas da atenção do público.

Em Fashion Beast, Alan Moore, em colaboração com Malcolm McLaren (ex-empresário da banda Sex Pistols e outras), traz uma leitura que não demora para chamar a atenção. Na trama, acompanhamos Doll Seguin, uma mulher que vivia em uma sarjeta qualquer e trabalhava em uma boate gay, tem a chance da vida ao ser selecionada pra trabalhar como modelo no salão de alta costura de Jean-Claude Celestine, um estilista que vive recluso em seu quarto. O salão de Celestine fica no centro da cidade e praticamente move a economia local, situada em um mundo distópico de Apocalipse Nuclear.

Aqui, Moore já faz uma provocação: um salão de alta costura funcionando em meio a um apocalipse nuclear?

A veia provocativa se estende por toda a trama. Moore e McLaren trazem temas de confronto social explícito, como a luta de classes no capitalismo tardio, o consumismo em tempos de guerra, distinções arbitrárias sobre gênero (sobretudo na figura dos dois protagonistas), as opressões sobre a liberdade sexual e a ditadura da estética, todos tendo a moda como ferramenta analítica principal ou tangencial. Moore não tinha interesse prévio particular na indústria da moda, como admitiu no prefácio da revista, mas demonstra ter um profundo entendimento conceitual sobre a moda e suas implicações no capitalismo. A mim, que não sou Alan Moore, resta apenas contemplar a capacidade do autor de produzir tão crível experiência de leitura sobre o tema em questão mesmo com a admitida limitação.

A narrativa é linear, o que torna a experiência de ler este título, mesmo peculiar, extremamente ágil e agradável: Moore aposta em uma história que flui muito gostosamente entre uma página e outra. Mesmo assim, preciso deixar claro que há alguns momentos mais contemplativos e outros ainda expositivos, nos quais é muito importante o leitor se deter um pouco mais para absorver o que está visualizando/lendo, pois há detalhes importantes para se absorver, mesmo no que parece banal ou secundário em cada página. Quando se trata de Alan Moore, a atenção ao ler nunca é demais.

A arte de Facundo Percio colabora neste ritmo e é simplesmente espetacular. Ele consegue transpor a densidade típica do autor para os visuais, que são nada menos que estonteantes. O ilustrador faz bastante uso de contraste, seja entre claro e escuro, seja entre cores fortes das pessoas e suas roupas e os cenários em sua maioria meio insípidos daquele lugar que, em grande parte, era desolado. O traço aposta muito mais em um visual mais simbólico, próximo do que seriam croquis, do que em realismo visual (e a meu ver acerta muito nisso). Há muito dinamismo visual, cada quadro encadeia o próximo com muita fluidez, o que ajuda muito na agilidade da leitura.

No fim, Fashion Beast teria muito a dizer sobre os anos 80/90. Teve muito a dizer sobre a época em que foi lançada (2012) e definitivamente tem mais ainda o que dizer sobre 2026. Afinal, o mundo segue em guerra, há risco de conflito nuclear cada vez mais pronunciado, a pior notícia sobre o capitalismo tardio é sempre a próxima, a perseguição aos LGBTs cada vez mais forte, mas seguimos a discutir sobre Neymar ir ou não à copa ou sobre o romance entre Lewis Hamilton e Kim Kardashian...

Talvez a Fera da Moda de fato esteja entre nós, agora mais do que nunca.