Cheguei a dizer, em conversas com amigos, que o dono da editora havia sido muito imbecil ao fazer isso. Mas acho válido refletir melhor, de forma racional, para entender as razões que levam a esse tipo de situação.
Ou alguém realmente acredita que isso aconteceria se o mercado brasileiro de quadrinhos e mangás não fosse tão excludente?
Longe de mim defender acriticamente a publicação de obras piratas no Brasil, seja de livros ou quadrinhos. Legalmente, a linha é bastante tênue entre o desejo de disponibilizar uma obra para o público e o desrespeito às normas que regem o licenciamento.
O dono da editora que publicou Urusei Yatsura está errado?
Legalmente falando, obviamente está.
Entretanto, jamais me verão dizendo que ele foi, nossa, “um estúpido” — ou, pior, caguetando para a editora japonesa. No máximo, foi ingênuo ao acreditar que poderia publicar o mangá sem licença e sair ileso — o que, acredito, não acontecerá.
O Brasil se lambuza em pirataria, e isso é uma idiossincrasia nacional: todos nós crescemos em um lugar onde consumir ou até comprar produtos piratas faz parte do nosso DNA cultural. Se isso é bom ou ruim, é outro debate, mas estes são os fatos.
Apesar de sermos, proporcionalmente, o maior mercado da América Latina para os japoneses — e, diga-se, para qualquer outro país que licencie obras em quadrinhos — seguimos sendo periferia do capitalismo, e nunca devemos esquecer isso. O poder de compra do brasileiro para livros e revistas é, via de regra, extremamente limitado.
Em um mundo onde um colecionável da Pipoca & Nanquim (e digo colecionável mais do que quadrinho ou mangá, porque é assim que eles vendem) pode custar facilmente mais de 200 reais, atos de paixão e tolice merecem algum nível de compreensão (compreensão, não leniência) por parte do público — nós, que estamos à mercê de editoras como Panini e JBC, que, de certa forma, monopolizam o acesso e estipulam preços muito altos sabendo que seu público, ainda assim, tentará acompanhar.
E não tentemos aqui nos grudar a um moralismo barato do tipo "ah, mas e o autor original?".
Sabemos que, mesmo com a obra licenciada, a maior parte dos lucros permanece com as editoras — pouquíssimo de fato vai para os autores. Alguns poucos conseguem se tornar muito ricos, como Toriyama e Kurumada, mas são exceções raríssimas.
Enquanto o mercado brasileiro de mangás, quadrinhos e afins for regido por lógicas excludentes, casos como o de Urusei Yatsura continuarão a surgir — não como atos de maldade, mas como sintomas de um sistema doente. A pergunta que fica é: estamos dispostos a pressionar por mudanças estruturais ou vamos seguir fingindo que o problema mora apenas na ‘burrice’ de um editor pirateiro?
Não sejamos hipócritas: nós amamos o pecado. Só detestamos o pecador.