DEATH NOTE E O NEOLIBERALISMO COMO DESUMANIZAÇÃO
Já pararam pra pensar em como Death Note é uma série sobre como até mesmo uma pessoa "comum" pode se tornar um genocida enlouquecido? Digo, ok, o Light Yagami não é um cara "comum", dada a inteligência fora do normal. Mas ele é tipicamente o jovem japonês médio nos anos 2000: demanda absoluta por performance acadêmica e aspirações para se tornar um burocrata. No âmago, Light guardava todos aqueles pensamentos sobre se julgar muito melhor que os outros muito antes do caderno.
E claro, as visões de mundo de Light sobre temas como segurança pública e sociedade contemporânea funcionam muito bem na cabeça de um adolescente ali na casa dos 15 a 17 anos, ou até na de alguns adultos de seus 20 a 25 anos. Light diz que o pensamento "é errado matar as pessoas" seria apenas o politicamente correto e socialmente aceito a ser dito, mas que, no fundo, as pessoas apoiam o que Kira está fazendo. A idealização de pensamento de um adolescente levada às últimas consequências.
Na figura de Light Yagami, Death Note dialoga com ideias muito infantis do protagonista sobre si mesmo. A ideia de Light sobre usar o caderno para se tornar o "deus do novo mundo", acompanhada de uma música grandiosa no desenho, evoca toda uma solenidade que pode até fazer o espectador médio se identificar, sobretudo se estiver na faixa etária anteriormente citada, ou se compartilhar estes valores infantis. E a validação que o "deus do novo mundo" busca, claro, é através do homicídio em massa.
Essa solenidade, no entanto, é a primeira coisa que começa a ruir quando a imagem de Kira é ameaçada. A máscara de justiça cai no momento em que Light executa Lind L. Tailor (ou quem ele acreditava ser o L) apenas por ter sido chamado de malvado em rede nacional. Ali, percebemos que Light não usa Kira como o avatar de um reformador social em busca de justiça. Ele o usa como um adolescente que fica frustrado quando as coisas não saem exatamente como ele esperava.
Em minha visão, tanto os autores do mangá pensam assim que a contraparte de Light no xadrez mental, apresentada inicialmente na figura do detetive L (e mais tarde de forma bem mais clara na figura de Near), falam exatamente o que qualquer pessoa sensata falaria: Light não é deus coisa alguma, é um adolescente comum, transformado em um assassino em massa através do poder corruptor do caderno, e com noções bastante infantis e simplórias sobre bem e mal, certo e errado que, repito, já estavam lá.
Eu não tenho a pretensão de dizer quem tá certo ou errado entre Light e L porque essa discussão já foi vencida, e naturalmente, Light está absolutamente equivocado, algo que o mangá e o desenho deixam muito claro desde o começo até o final, quando ele é derrotado de maneira satisfatoriamente humilhante. Essa discussão, aliás, perde totalmente o sentido a partir da morte de Lind L. Tailor. A ideia aqui não é tentar criar uma espécie de relativismo moral do protagonista. O que pretendo é entender como o caderno transforma o ato de matar em um processo burocrático e asséptico. Light não precisa sujar as mãos de sangue. Ele apenas escreve nomes no papel, como se estivesse preenchendo formulários ou estudando pras provas, o que ironicamente ele até chega a fazer no desenho: matar pessoas enquanto estuda, na famosa cena das batatinhas.
Como quase tudo, isto é reflexo do pensamento neoliberal contemporâneo, essa ideia de maximizar produtividade, de eliminar o aspecto emocional e inerentemente humano das relações, que torna até mesmo o ato de tirar a vida de outra pessoa em uma mera inconveniência de preencher um nome em uma folha de papel. Essa lógica se sustenta em uma distorção da ideia de meritocracia. Como o "melhor aluno do país", Light acredita possuir o capital intelectual necessário para gerir o destino coletivo.
Quando você reduz a humanidade das vítimas ao mero nome e imagem, de modo que matá-las se torna apenas tão inconveniente quanto preencher nomes em um caderno, praticamente qualquer pessoa pode virar um assassino. O envolvimento com o ato é quase nulo. Não há sangue, choque emocional ou contato com a dor da vítima ao morrer. O que nos leva de volta a...
Já pararam pra pensar em como Death Note é uma série sobre como até mesmo uma pessoa "comum" pode se tornar um genocida enlouquecido?

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