Tenho visto um argumento muito comum entre os que se preocupam com a inserção do marcador racial no personagem Severo Snape na narrativa de Harry Potter a partir da escalação de Paapa Essiedu para viver o personagem na série: o de que personagens que fizeram bullying com ele, no caso os marotos, se tornarão racistas, ao menos na juventude, e que haverá uma tensão racial permanente nas dinâmicas que envolverão o personagem Snape em Hogwarts. Tentarei discorrer.
À primeira vista, isso pode parecer uma preocupação com coerência narrativa. Mas, ao olhar com mais cuidado, o que me parece é que esse argumento revela algo mais profundo: uma dificuldade real de parte do fandom de Harry Potter em lidar com complexidade narrativa e tensões sociais explícitas. O argumento que mais aparece nesse sentido seria de que no mundo bruxo não haveria preconceitos de ordem étnica entre humanos na composição das relações sociais e de produção. Isto é bem ingênuo, a meu ver.
Para sustentar este argumento, o fandom vai apontar que a aparição do preconceito na narrativa de J.K. Rowling se baseia essencialmente na dominação imposta pelos bruxos (essencialmente humanoides) sobre criaturas de outras raças. Bom, isto é considerado canônico, já que os livros nunca tocaram em tensões raciais interhumanas, ou ao menos não de formas explícitas. Isto é uma escolha narrativa da autora.
À primeira vista, isso pode parecer uma preocupação com coerência narrativa. Mas, ao olhar com mais cuidado, o que me parece é que esse argumento revela algo mais profundo: uma dificuldade real de parte do fandom de Harry Potter em lidar com complexidade narrativa e tensões sociais explícitas. O argumento que mais aparece nesse sentido seria de que no mundo bruxo não haveria preconceitos de ordem étnica entre humanos na composição das relações sociais e de produção. Isto é bem ingênuo, a meu ver.
Para sustentar este argumento, o fandom vai apontar que a aparição do preconceito na narrativa de J.K. Rowling se baseia essencialmente na dominação imposta pelos bruxos (essencialmente humanoides) sobre criaturas de outras raças. Bom, isto é considerado canônico, já que os livros nunca tocaram em tensões raciais interhumanas, ou ao menos não de formas explícitas. Isto é uma escolha narrativa da autora.
Ocorre que o silêncio também é uma forma de falar. Ao sugerir que o mundo bruxo não tem tensões de origem racial entre humanos, a autora não se torna imune a leituras críticas. Pelo contrário: esse silêncio pode ser lido como um apagamento, um recorte ou mesmo uma limitação da própria construção de mundo. Toda narrativa escolhe o que iluminar e o que deixar à sombra. essas escolhas dizem tanto quanto aquilo que é explicitamente desenvolvido.
No caso de Harry Potter, as tensões sociais são deslocadas para outros eixos, especialmente na relação entre bruxos e trouxas, ou entre humanos e outras criaturas, como já explicitamos. Tomar esse silêncio como prova de inexistência de tensões étnicas interhumanas é, portanto, uma leitura ingênua ou, no mínimo, pouco crítica, tanto da autora quanto de quem a lê.
E demograficamente falando, não está equivocado. Pessoas negras, mesmo hoje, correspondem a menos de 4% da população do Reino Unido. Só que Harry Potter não é um estudo demográfico e sim uma obra de fantasia infantojuvenil. Escolher não explicitar tensões raciais nestas condições não faz com que, nas entrelinhas, não possamos enxergar conflitos tácitos. As famílias mais ricas e poderosas dos Sagrados Vinte e Oito, por exemplo, são brancas, tais como a família Black, Malfoy etc.
O que eu quero dizer é que a ideia de que não poderia haver tensões raciais em Harry Potter é sintoma de um sistema fechado, rígido, que não admite discussões para além daquilo que está perfeitamente explícito na obra ou, quando muito, deve-se buscar apenas aquilo que é passível de ser canonicamente verdadeiro (sendo a palavra de J.K Rowling, por sinal, absoluta como crivo sobre o que é verdade ou não dentro desse sistema).
E é justamente essa leitura que sustenta a reação exagerada a um possível deslocamento interpretativo do personagem Severo Snape a partir da mudança de etnia do personagem. Ao invés de encarar a mudança como uma abertura de novas camadas de leitura, parte do fandom responde como se estivesse diante de uma quebra de regras rígidas e imutáveis. Como se a obra só pudesse existir dentro dos limites exatos do que foi explicitamente mostrado e qualquer ampliação fosse, por definição, uma distorção.
Ocorre que não é assim que funciona na crítica literária. Obras de ficção estão perfeitamente abertas a leituras interpretativas, críticas construtivas e análises de texto para além do que é explicitado. Não cabe ao fã tentar interditar a crítica através do apelo a uma verdade monolítica construída com base em olhares literalistas sobre a natureza do texto. Essa postura do fandom não revela zelo pela narrativa, mas uma dificuldade em lidar com suas lacunas, ambiguidades e possibilidades.
A adoção deste sistema rígido que mencionei dois parágrafos atrás é sintoma, a meu ver, da infantilização mencionada no título desse texto. Tal infantilização produz a recusa em aceitar interpretações diversas das que a verdade canônica que ele tenta impor, porque no fim, se pretende manter absolutamente tudo como está para não ferir os frágeis sentimentos de nostalgia do fandom. Fidelidade pressupõe previsibilidade e conforto. O fã quer conforto, não tensão. E isso é sintoma da infantilização.
Nesse sentido, surge também um argumento aparentemente conciliador: o de que seria mais adequado explorar tensões raciais a partir de personagens negros já existentes na narrativa, como Dino Thomas, ou mesmo reimaginar personagens como Hermione Granger, em vez de deslocar etnicamente figuras centrais e controversas como Severo Snape. Até parece uma ideia razoável. No entanto, ela carrega uma limitação importante: a ideia de que certos temas devem estar restritos a determinados personagens.
Esse tipo de raciocínio subdivide a narrativa, como se personagens negros já existentes fossem os únicos capazes de sustentar discussões raciais, enquanto os demais devem ser preservados em uma espécie de neutralidade fictícia. Isso é delicado porque a ideia de que a tensão racial deve se restringir a personagens já racializados tende a naturalizar uma divisão implícita: a de que esses personagens existem apenas como veículos para esses temas.
Ao que me parece, isso reforça a noção de que personagens brancos devem permanecer inalterados e sem tensões raciais, enquanto personagens negros devem existir sempre em função de sua racialização. Trata-se de uma lógica que não apenas empobrece a narrativa, como também reproduz, ainda que de forma indireta, uma hierarquia simbólica bastante conhecida. No fim, parece não se tratar de proteger a coerência da obra, mas de preservar quem pode e quem não pode ser racialmente complexo dentro dela.
Dito isso, concluo que um fandom infantilizado como o de Harry Potter não percebe um Snape negro como uma gigantesca oportunidade narrativa de densificar e expandir discussões contemporâneas e absolutamente necessárias sobre a tensão racial no Reino Unido. Para o fandom, esta mudança será percebida inicialmente como "quebra de fidelidade", mas no fundo, também revela uma intolerância estrutural a quebra de expectativa, perda de poder simbólico e desafio estrutural proposto pela arte em questão.
Para ser sincero, isto me parece quase irônico, vindo de um fandom que procura proteger o gosto por Harry Potter com alegações de que seria uma saga com temas sociais de perseguição a minorias e que buscaria valorizar os laços humanos para além das tensões étnicas e raciais. Mas, quando essas mesmas tensões da vida real entram em conflito com parâmetros já estabelecidos na narrativa, a resposta usual é rejeição imediata, fechamento interpretativo e defesa rígida de uma suposta “fidelidade”.
No limite, valores que são celebrados em abstrato, tais como empatia, diversidade e enfrentamento de injustiças, tornam-se quase notas de rodapé quando se propõe reinterpretações concretas na obra e em alguns personagens. Em última instância, este fato expõe a natureza infantilizada e reacionária do fandom.
E talvez seja justamente isso que torna essa mudança étnica no personagem Severo Snape tão incômoda e, ao mesmo tempo, tão necessária
No caso de Harry Potter, as tensões sociais são deslocadas para outros eixos, especialmente na relação entre bruxos e trouxas, ou entre humanos e outras criaturas, como já explicitamos. Tomar esse silêncio como prova de inexistência de tensões étnicas interhumanas é, portanto, uma leitura ingênua ou, no mínimo, pouco crítica, tanto da autora quanto de quem a lê.
E demograficamente falando, não está equivocado. Pessoas negras, mesmo hoje, correspondem a menos de 4% da população do Reino Unido. Só que Harry Potter não é um estudo demográfico e sim uma obra de fantasia infantojuvenil. Escolher não explicitar tensões raciais nestas condições não faz com que, nas entrelinhas, não possamos enxergar conflitos tácitos. As famílias mais ricas e poderosas dos Sagrados Vinte e Oito, por exemplo, são brancas, tais como a família Black, Malfoy etc.
O que eu quero dizer é que a ideia de que não poderia haver tensões raciais em Harry Potter é sintoma de um sistema fechado, rígido, que não admite discussões para além daquilo que está perfeitamente explícito na obra ou, quando muito, deve-se buscar apenas aquilo que é passível de ser canonicamente verdadeiro (sendo a palavra de J.K Rowling, por sinal, absoluta como crivo sobre o que é verdade ou não dentro desse sistema).
E é justamente essa leitura que sustenta a reação exagerada a um possível deslocamento interpretativo do personagem Severo Snape a partir da mudança de etnia do personagem. Ao invés de encarar a mudança como uma abertura de novas camadas de leitura, parte do fandom responde como se estivesse diante de uma quebra de regras rígidas e imutáveis. Como se a obra só pudesse existir dentro dos limites exatos do que foi explicitamente mostrado e qualquer ampliação fosse, por definição, uma distorção.
Ocorre que não é assim que funciona na crítica literária. Obras de ficção estão perfeitamente abertas a leituras interpretativas, críticas construtivas e análises de texto para além do que é explicitado. Não cabe ao fã tentar interditar a crítica através do apelo a uma verdade monolítica construída com base em olhares literalistas sobre a natureza do texto. Essa postura do fandom não revela zelo pela narrativa, mas uma dificuldade em lidar com suas lacunas, ambiguidades e possibilidades.
A adoção deste sistema rígido que mencionei dois parágrafos atrás é sintoma, a meu ver, da infantilização mencionada no título desse texto. Tal infantilização produz a recusa em aceitar interpretações diversas das que a verdade canônica que ele tenta impor, porque no fim, se pretende manter absolutamente tudo como está para não ferir os frágeis sentimentos de nostalgia do fandom. Fidelidade pressupõe previsibilidade e conforto. O fã quer conforto, não tensão. E isso é sintoma da infantilização.
Nesse sentido, surge também um argumento aparentemente conciliador: o de que seria mais adequado explorar tensões raciais a partir de personagens negros já existentes na narrativa, como Dino Thomas, ou mesmo reimaginar personagens como Hermione Granger, em vez de deslocar etnicamente figuras centrais e controversas como Severo Snape. Até parece uma ideia razoável. No entanto, ela carrega uma limitação importante: a ideia de que certos temas devem estar restritos a determinados personagens.
Esse tipo de raciocínio subdivide a narrativa, como se personagens negros já existentes fossem os únicos capazes de sustentar discussões raciais, enquanto os demais devem ser preservados em uma espécie de neutralidade fictícia. Isso é delicado porque a ideia de que a tensão racial deve se restringir a personagens já racializados tende a naturalizar uma divisão implícita: a de que esses personagens existem apenas como veículos para esses temas.
Ao que me parece, isso reforça a noção de que personagens brancos devem permanecer inalterados e sem tensões raciais, enquanto personagens negros devem existir sempre em função de sua racialização. Trata-se de uma lógica que não apenas empobrece a narrativa, como também reproduz, ainda que de forma indireta, uma hierarquia simbólica bastante conhecida. No fim, parece não se tratar de proteger a coerência da obra, mas de preservar quem pode e quem não pode ser racialmente complexo dentro dela.
Dito isso, concluo que um fandom infantilizado como o de Harry Potter não percebe um Snape negro como uma gigantesca oportunidade narrativa de densificar e expandir discussões contemporâneas e absolutamente necessárias sobre a tensão racial no Reino Unido. Para o fandom, esta mudança será percebida inicialmente como "quebra de fidelidade", mas no fundo, também revela uma intolerância estrutural a quebra de expectativa, perda de poder simbólico e desafio estrutural proposto pela arte em questão.
Para ser sincero, isto me parece quase irônico, vindo de um fandom que procura proteger o gosto por Harry Potter com alegações de que seria uma saga com temas sociais de perseguição a minorias e que buscaria valorizar os laços humanos para além das tensões étnicas e raciais. Mas, quando essas mesmas tensões da vida real entram em conflito com parâmetros já estabelecidos na narrativa, a resposta usual é rejeição imediata, fechamento interpretativo e defesa rígida de uma suposta “fidelidade”.
No limite, valores que são celebrados em abstrato, tais como empatia, diversidade e enfrentamento de injustiças, tornam-se quase notas de rodapé quando se propõe reinterpretações concretas na obra e em alguns personagens. Em última instância, este fato expõe a natureza infantilizada e reacionária do fandom.
E talvez seja justamente isso que torna essa mudança étnica no personagem Severo Snape tão incômoda e, ao mesmo tempo, tão necessária

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